Saturday, October 11, 2014
Friday, October 10, 2014
Proteja-se
Cuide-se como se você fosse de ouro. Ponha-se você mesma de
vez em quando numa redoma e poupe-se.
Clarice Lispector
Thursday, October 9, 2014
Coisas leves
Não sei tecer
senão espumas,
nuvens
e brumas.
Coisas breves,
leves,
que o vento desfaz.
Como prender-te
em teia tão frágil?
Luísa Dacosta in A Maresia e o Sargaço dos Dias
Wednesday, October 8, 2014
Curto episódio
Era apenas mais um final de tarde,
e o facto de nunca querer perder o que quer que fosse. Naquele dia sombrio, observava duas crianças apostadas em moldar
um castelo à beira mar – uma lufada de criatividade, pronto a desmoronar-se à
mercê de uma onda mais inconsequente. Nada de somenos importância, visto a sua
diferencialidade não desaparecer, mas pelo contrário, abrir novas
possibilidades de um jogo cuja mecânica seria infinita.
Tuesday, October 7, 2014
A manhã
Não aprofundes o teu tédio.
Não te entregues à mágoa vã.
O próprio tempo é o bom remédio:
bebe a delícia da manhã.
Manuel Bandeira
Monday, October 6, 2014
Sunday, October 5, 2014
Sequência final
A dada altura, quando nada mais parecia
vibrar à sua volta o momento exigia-lhe um novo olhar. O que procurava, afinal?
Nesse sentido, redesenha um inimaginável refúgio para a realidade, num mundo à
parte no qual redescobre a poesia, ao ritmo da ondulação.
Saturday, October 4, 2014
A dúvida
Primeiro sabem-se as respostas.
As perguntas chegam depois,
como aves voltando a casa ao fim da tarde
e pousando, uma a uma, no coração
quando o coração já se recolheu
de perguntas e respostas.
Que coração, no entanto pode repousar
com o restolhar de asas no telhado?
A dúvida agita
os cortinados
e nos sítios mais íntimos da vida
acorda o passado.
Porquê, tão tardo, o passado?
Se ficou por saldar algo
com Deus ou com o Diabo
e se é o coração a saldo
porquê agora, Cobrança,
quando medo e esperança
se recolhem também sob
lembranças extenuadas?
Enche-se de novo o silêncio de vozes despertas,
e de poços, e de portas entreabertas,
e sonham no escuro
as coisas
acabadas.
Manuel António Pina
Friday, October 3, 2014
O atalho
Quando o Capuchinho Vermelho viu como os raios de
sol dançavam entre as árvores, e como havia lindas flores por todo o lado,
pensou: "Se eu levar à avó um ramo fresco, irei dar-lhe uma grande alegria."
Então, desviou-se do seu percurso e entrou no bosque à procura de mais flores.
E cada vez que apanhava uma, pensava que mais longe haveria outra correndo a
apanhá-la, de tal forma que penetrou cada vez mais na floresta. Só quando já
tinha tantas flores que não podia carregar mais é que o Capuchinho Vermelho se
lembrou da avó e retomou o caminho para sua casa.
Charles Perraut in O Capuchinho Vermelho
Thursday, October 2, 2014
Concerto
A obra de António
Pinto Vargas num espectáculo concebido e interpretado pelo próprio foi a
proposta que escolhemos para celebrar o dia mundial da música.
Wednesday, October 1, 2014
A música
Esta noite
vou servir um chá
Feito de
ervas e jasmim
E aromas que
não há
Vou chamar a
música
Encontrar à
flor de mim
Um poema de
cetim
Rosa Lobato de Faria
Tuesday, September 30, 2014
Uma ausência de nome
Em voz alta, ensaiei o teu nome:
a palavra partiu-se
Nem eco ínfimo neste quarto
quase oco de mobília
Quase um tempo de vida a dormir
a teu lado e o desapego é isto:
um eco ausente, uma ausência de nome
a repetir-se
saber que nunca mais: reduzida
a um canto desta cama larga,
o calor sufocante
Em vez: o meu pé esquerdo
cruzado em lado esquerdo
nesta cama
O teu nome num chão
nem de saudades
Ana Luisa Amaral in Se fosse um intervalo
Monday, September 29, 2014
Jogos de sons
A partir de uma pluralidade de
estilos, o concerto de jazz que, marcou o início do Outono, trouxe-nos uma
série de peças onde acordes, tempos e compassos fluíram com grande engenhosidade.
Dificilmente explicável torna-se impossível não se ficar fascinado com a espontaneidade
de tão diferentes possibilidades musicais.
Sunday, September 28, 2014
Aquela praia
De todos os cantos do mundo
Amo com um amor mais forte e mais profundo
Aquela praia extasiada e nua,
Onde me uni ao mar, ao vento e à lua.
Sophia de Mello Breyner Andresen
Saturday, September 27, 2014
Friday, September 26, 2014
Thursday, September 25, 2014
Nobre cabeça
Como se poderia desfazer em mim a tua nobre cabeça, essa
torre deslumbrada pelo mudo calor dos dias, pelo
brilhante gelo nocturno? É pela cabeça
que os mortos maravilhosamente pesam
no nosso coração.
Essas flores intangíveis para as quais
temos medo de sorrir, as armas
lavradas, as liras que estremecem e pendem
sobre os rios agitados das coisas. Só o amor as abre
e vê sua confusa e grave geografia, as fontes
livres de onde os pensamentos crescem
como a folhagem iluminada das antigas idades
do ouro.
Eu próprio levanto minha exígua cabeça de vivo,
procuro colocar-me num ponto irradiante
da terra, olhar de frente
com toda a inspiração do meu passado, e estar
à altura dos mortos, na zona
esplêndida e vasta
da sua nobreza - receber essa espécie de força
indestrutível
que envolve a cabeça montada sobre os dias e dias,
de que as rosas bebem
o jeito aéreo e a boca
a delicadeza misteriosa.
Existem árvores cercando os animais sonhadores, o grande
arco das eras com os fogos rápidos
presos como campânulas, e a fixa vontade
do homem ardendo e gelando
no tempo. À beira dos rios canta-se ou deixa-se
que as mãos se gastem, deslumbradas
do seu poder, da sua grande miséria
como um sonho. Um nome, contudo, existe
suspenso sobre as estações do ano. Essa cabeça
dos mortos - a tua cabeça aérea como o verde
das pedras ou o movimento
das corolas frias,
essa cabeça sumptuosa, rodeada de estreitas
víboras -
sobe do nosso, do meu coração, até que a minha
mesma cabeça
nada mais seja que a possessiva, doce cabeça
dos mortos.
herberto helder in elegia múltipla, poema I - poesia toda - assírio
& alvim 1996
Wednesday, September 24, 2014
O regresso
Havia Verões cuja memória se não
queria perder e, apenas reforçavam o desfilar de imagens, na maioria dos casos
junto ao mar. Coisas banais que, pela sua dimensão, Mariana ia recuperando uma
a uma. e se viriam a completar. O som prolongado das ondas do mar, as mudanças
bruscas de marés, e o despojamento sublime de toda aquela grandeza, e por aí
fora. Sim, esse era, sem dúvida, o seu cenário. Quase perfeito. Recuperado de
um simples sopro no espaço que, a bem dizer, precisou de reinventar.
Tuesday, September 23, 2014
Estado de alma
e as pequenas sombras alongadas
sobre a mesa de madeira e pedra.
A brisa entra por uma porta antiga.
Uma pétala branca cai de uma flor branca.
Sou, mais do que sou, estou
na perfeição das coisas que me envolvem.
Repouso na sinuosa exactidão.
António Ramos Rosa in Poemas de A Rosa Esquerda - Leya - Lisboa, 2009
Monday, September 22, 2014
Final do Verão
Encontro de amigos na Casa Malembe, em Centieira onde a vista se estende pela serra de Alte distante do litoral turístico.
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