Saturday, November 3, 2012
Friday, November 2, 2012
A folhagem e o espaço
Algo nos cria e nos liberta dos absurdos cercos.
Despertámos para tocar a boca esquecida pela noite.
Somos a folhagem e o espaço, somos uma garganta fresca.
As sombras aquecem-nos e as estrelas visitam-nos.
O meu corpo é de argila estou vivo e aceito o dia.
António Ramos Rosa in corpo de argila de volante verde, 1986
Thursday, November 1, 2012
Wednesday, October 31, 2012
Tuesday, October 30, 2012
Folhagens
Fito-a, repetidamente e com lentidão, em função do tempo. O efeito da luz vem acentuar o contraste
das cores das folhas que, me cobrem o jardim. Por detrás da janela, recolho uma
imagem reconfortante ao som do vento que, num murmúrio assobia.
Monday, October 29, 2012
Zona de lazer
A sincronia de movimentos causa-me bem-estar, enquanto a
leveza do embalo, me convida à reflexão. À luz do tempo, identifico evocações e
memórias, e estados de espírito ainda por decifrar. A tragédia da vida, o mal
calculado, e o que nos baralhou as contas, silencia-me o espaço abstracto.
Somente o rumor da brisa me ajuda a entender o quão se tem sofrido em conjunto.
E, para o ano, o declínio prevê-se pior. Perturbante é a falta de opções, o
negar de evidências e as expectativas logradas. No encandear de acontecimentos
nada encarreira e tudo se esfuma.
Sunday, October 28, 2012
Quando me lembro
se envelhecesses a meu lado, cedo perceberias
que nunca fui digno do teu rosto ou da tua ternura.
é isto que penso quando me lembro que partiste.
José Luís Peixoto in A Casa, a Escuridão
Saturday, October 27, 2012
Friday, October 26, 2012
Pedaços do mundo
À medida que avanço, entregue a
errâncias, descubro-a. O local é mágico, pulsante de vida, e decido por a
abraçar. Abraço uma árvore inteira e real. O seu porte é esguio, e as imperfeições
acentuam-lhe o carácter. Capto-lhe os desabafos, sentimentos e posturas. E, busco-lhe
a expressão poética sem excluir a transcendência.
Thursday, October 25, 2012
Os sinais de desânimo
Nem uma palavra.
Reduzida a escombros, inanimada e frágil, a esperança nem sequer nos espreita
e, simplesmente desapareceu. Não nos convida a viver sonhos, perdeu por
completo o sentido de futuro, em suma, remeteu-se à sombra e, definitivamente,
sem qualquer tipo de rasgo, desvaneceu. O que nos sustenta, sem direito às
pequenas coisas? Desejamos que se apresse. Com uma nova vida. Recuperando o
paraíso perdido, ou pelo menos, algumas vantagens. E, já que o tempo se esgota
é urgente inspiração.
Wednesday, October 24, 2012
Tuesday, October 23, 2012
A cada gesto
Somos folhas breves onde
dormem
aves de silêncio e solidão.
Somos só folhas e o seu rumor.
Inseguros, incapazes de ser flor,
até a brisa nos perturba e faz tremer.
Por isso a cada gesto que fazemos
cada ave se transforma noutro ser.
Eugénio de Andrade
aves de silêncio e solidão.
Somos só folhas e o seu rumor.
Inseguros, incapazes de ser flor,
até a brisa nos perturba e faz tremer.
Por isso a cada gesto que fazemos
cada ave se transforma noutro ser.
Eugénio de Andrade
Monday, October 22, 2012
Os dias a fio
Portadora de uma dinâmica, acedo a gestos recorrentes,
retirando folhas e galhos, secos e pardos. Este processo é complementado com a
poda. Num momento, quando tudo mais parece esvaziar-se, aqui me extasio. No meu
jardim, a esperança persiste, e a presença das cores ainda detém o protagonismo.
Sunday, October 21, 2012
Percursos
Um olhar mais atento, descobre cores inimagináveis. Sou daquelas
pessoas que, se delicia, principalmente com a folhagem. Nesta altura do ano, é difícil
idealizar melhor. Ao andar a pé uma série de quilómetros, ora debaixo de um sol
abrasador, ou de chuva e lama, acompanhada do Rico, e de quem mais decide juntar-se-nos, as subidas inclinadas transformam-se, por vezes, numa verdadeira
aventura física, quando a curiosidade se torna absolutamente relevante. É um
infinito espaço aberto que se renova a si mesmo ganhando uma notória mudança de
tonalidades.
Saturday, October 20, 2012
Friday, October 19, 2012
Um mundo perfeito
Por estes
dias, com o frio mais intenso e a chuva miudinha, começa a saber bem o conforto
do lar ao fim do dia, e o aconchego de uma noite de sono tranquila, com um édredon
macio ao toque, para espantar a crise.
Thursday, October 18, 2012
Wednesday, October 17, 2012
Em curso
Numa altura em que tanto sentimos
a falta de esperança e previsibilidade, para alguns, torna-se mais fácil negar
a realidade, traindo-a e diminuindo a consciência. O paradoxo que nos distingue
os dias, tendo como característica o irracionalismo, converte-nos a vida em
algo tanto mais aceitável quanto eficaz. Do abstracto ao sonho, passando pelo fruto
da imaginação, tudo serve de formas de expressão para valorizar um horizonte de
possibilidades absurdas e soluções cénicas, muito mais tranquilas que o momento
presente.
Na verdade o mundo é imaginação. É Deus lembrando-se de si em
concordância com a sua realidade essencial.
Ibn al Arabi, Fusus al –Hikam in Os engastes da sabedoria
Tuesday, October 16, 2012
Luz outonal
Da janela
entreaberta observo a incomparável luz da nova estação. A luminosidade das
manhãs, tal como ao fim da tarde, ganha, nesta altura, uma outra intensidade,
alargando-me horizontes entre expectativas e decepções.
Monday, October 15, 2012
Correndo pela noite como éguas
Mulheres correndo, correndo pela
noite.
O som de mulheres
correndo, lembradas, correndo
como éguas abertas, como sonoras
corredoras magnólias.
Mulheres pela noite dentro levando nas patas
grandiosos lenços brancos.
Correndo com lenços muito vivos nas patas
pela noite dentro.
Lenços vivos com suas patas abertas
como magnólias
correndo, lembradas, patas pela noite
viva. Levando, lembrando, correndo.
É o som delas batendo como estrelas
nas portas. O céu por cima, as crinas negras
batendo: é o som delas. Lembradas,
correndo. Estrelas. Eu ouço: passam, lembrando.
As grandiosas patas brancas abertas no som,
à porta, com o céu lembrando.
Crinas correndo pela noite, lenços vivos
batendo como magnólias levadas pela noite,
abertas, correndo, lembrando.
De repente, as letras. O rosto sufocado como
se fosse abril num canto da noite.
O rosto no meio das letras, sufocado a um canto,
de repente.
Mulheres correndo, de porta em porta, com lenços
sufocados, lembrando letras, levando
lenços, letras - nas patas
negras, grandiosamente abertas.
Como se fosse abril, sufocadas no meio.
Era o som delas, como se fosse abril a um canto
da noite, lembrando.
Ouço: são elas que partem. E levam
o sangue cheio de letras, as patas floridas
sobre a cabeça, correndo, pensando.
Atiram-se para a noite com o sonho terrível
de um lenço vivo.
E vão batendo com as estrelas nas portas. E sobre
a cabeça branca, as patas lembrando
pela noite dentro.
O rosto sufocado, o som abrindo, muito
lembrado. E a cabeça correndo, e eu ouço:
são elas que partem, pensando.
Então acordo de dentro e, lembrando, fico
de lado. E ouço correr, levando
grandiosos lenços contra a noite com estrelas
batendo nas patas
como magnólias pensando, abertas, correndo.
Ouço de lado: é o som. São elas, lembrando
de lado, com as patas
no meio das letras, o rosto sufocado
correndo pelas portas grandiosas, as crinas
brancas batendo. E eu ouço: é o som delas
com as patas negras, com as magnólias negras
contra a noite.
Correndo, lembrando, batendo.
Herberto Helder
como éguas abertas, como sonoras
corredoras magnólias.
Mulheres pela noite dentro levando nas patas
grandiosos lenços brancos.
Correndo com lenços muito vivos nas patas
pela noite dentro.
Lenços vivos com suas patas abertas
como magnólias
correndo, lembradas, patas pela noite
viva. Levando, lembrando, correndo.
É o som delas batendo como estrelas
nas portas. O céu por cima, as crinas negras
batendo: é o som delas. Lembradas,
correndo. Estrelas. Eu ouço: passam, lembrando.
As grandiosas patas brancas abertas no som,
à porta, com o céu lembrando.
Crinas correndo pela noite, lenços vivos
batendo como magnólias levadas pela noite,
abertas, correndo, lembrando.
De repente, as letras. O rosto sufocado como
se fosse abril num canto da noite.
O rosto no meio das letras, sufocado a um canto,
de repente.
Mulheres correndo, de porta em porta, com lenços
sufocados, lembrando letras, levando
lenços, letras - nas patas
negras, grandiosamente abertas.
Como se fosse abril, sufocadas no meio.
Era o som delas, como se fosse abril a um canto
da noite, lembrando.
Ouço: são elas que partem. E levam
o sangue cheio de letras, as patas floridas
sobre a cabeça, correndo, pensando.
Atiram-se para a noite com o sonho terrível
de um lenço vivo.
E vão batendo com as estrelas nas portas. E sobre
a cabeça branca, as patas lembrando
pela noite dentro.
O rosto sufocado, o som abrindo, muito
lembrado. E a cabeça correndo, e eu ouço:
são elas que partem, pensando.
Então acordo de dentro e, lembrando, fico
de lado. E ouço correr, levando
grandiosos lenços contra a noite com estrelas
batendo nas patas
como magnólias pensando, abertas, correndo.
Ouço de lado: é o som. São elas, lembrando
de lado, com as patas
no meio das letras, o rosto sufocado
correndo pelas portas grandiosas, as crinas
brancas batendo. E eu ouço: é o som delas
com as patas negras, com as magnólias negras
contra a noite.
Correndo, lembrando, batendo.
Herberto Helder
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