Ao recordar a infância, torna-se inevitável destacar aquele
pequeno ursinho de peluche, sempre atento às mágoas, quando o desconforto é
evidente. Com a capacidade de nos ouvir, é ainda capaz de mudar o rumo dos
acontecimentos num mundo tão hostil quanto irreparável.
Monday, February 18, 2013
Sunday, February 17, 2013
Semidesilusão
Entre vinhedos e
amendoeiras em flor, o que parece estar em causa, na natureza, supostamente
perfeita, é meia flor. Em cada metade que se perde, anterior à que fica, um
mesmo solo sobre o qual tudo se repete, e que na sua pequena condição se
redime.
Saturday, February 16, 2013
Do outro lado
Se me disserem que
estás do outro lado
de uma ponte, por estranho que pareça
que estejas do outro lado e que me esperes,
eu atravesso essa ponte.
Diz-me qual é a ponte que separa
a tua vida da minha,
em que hora negra, em que cidade chuvosa,
em que mundo sem luz está essa ponte,
e eu atravesso-a.
Amalia Bautista
Friday, February 15, 2013
Muro alto
Atravessei
contigo a minuciosa tarde
deste-me a tua mão, a vida parecia
difícil de estabelecer
acima do muro alto
folhas tremiam
ao invisível peso mais forte
Podia morrer por uma só dessas coisas
que trazemos sem que possam ser ditas:
astros cruzam-se numa velocidade que apavora
inamovíveis glaciares por fim se deslocam
e na única forma que tem de acompanhar-te
o meu coração bate
José Tolentino Mendonça
deste-me a tua mão, a vida parecia
difícil de estabelecer
acima do muro alto
folhas tremiam
ao invisível peso mais forte
Podia morrer por uma só dessas coisas
que trazemos sem que possam ser ditas:
astros cruzam-se numa velocidade que apavora
inamovíveis glaciares por fim se deslocam
e na única forma que tem de acompanhar-te
o meu coração bate
José Tolentino Mendonça
Thursday, February 14, 2013
Diz-se tudo sem palavras
O percurso é tão forte que num primeiro capítulo extravasa desconhecendo
fronteiras. A inutilidade das palavras abre caminho à sonoridade do gesto, tão
poético quanto doce, num tempo que, parece mais longo do que, na realidade, é.
Mas, eis senão quando na ausência da autenticidade ao nível do desenlace momentos
de desencanto e frustração se repetem, num regresso impossível.
Wednesday, February 13, 2013
Ondas de rádio
O acesso à informação, as vozes
ao longo do dia, e por vezes em noites de insónia, o destaque à música, tudo
isso tem a ver com a rádio neste primeiro dia em que é celebrada. Invisível, além
da companhia, transporta-nos, como que por magia para além do que se não
conhece, quando a imaginação não tem limites. Basta sintonizar!
Tuesday, February 12, 2013
Monday, February 11, 2013
Nenhuma certeza
O mundo acabou. E não ficou nada. Nem as certezas. Nem as sombras. Nem as cinzas. Nem os gestos. Nem as palavras. Nem o amor. Nem o lume. Nem o céu. Nem os caminhos. Nem o passado. Nem as ideias. Nem o fumo. O mundo acabou. E não ficou nada. Nenhum sorriso. Nenhum pensamento. Nenhuma esperança. Nenhum consolo. Nenhum olhar.
José Luís Peixoto
Sunday, February 10, 2013
O novo ano lunar
Avança lenta,
sensual, misteriosa, e muito firme nos seus objectivos que, nunca perde de
vista. A serpente, segue-se ao dragão, e chega hoje com o início da lua nova,
iluminada por fogos-de-artifício, na China, e em muitos outros lugares do
mundo. Símbolo da sabedoria, está ainda associada à fortuna e longevidade por
multidões que, ao desfilar e fazer barulho, nas ruas, procuram espantar os maus espíritos.
Saturday, February 9, 2013
Colectivo musical
Em contradição com o desânimo actual, num
desesperado esforço de alento o tempo na agenda é de folia, e convida à
partilha de uma alegria imensa e contagiante, em sintonia com a presença do
Brasil. É quando o som emerge que, o Carnaval, espontaneamente, ganha expressão
relançando-nos na onda do samba.
Friday, February 8, 2013
Solidão e loucura
Pedem tanto a quem ama: pedem
o amor. Ainda pedem
a solidão e a loucura.
Dizem: dá-nos a tua canção que sai da sombra fria.
E eles querem dizer: tu darás a tua existência
ardida, a pura mortalidade.
Às mulheres amadas darei as pedras voantes,
uma a uma, os pára-
-raios abertíssimos da voz.
As raízes afogadas do nascimento. Darei o sono
onde um copo fala
fusiforme
batido pelos dedos. Pedem tudo aquilo em que respiro.
Dá-nos tua ardente e sombria transformação.
E eu darei cada uma das minhas semanas transparentes,
lentamente uma sobre a outra.
herberto helder
Thursday, February 7, 2013
Wednesday, February 6, 2013
Uma outra forma de arte
Pela estrada fora, esquecidas entre a luz e a sombra, ou de
uma forma elevada fitando o mar, eis longas sequências de amendoeiras em
alinhamentos paralelos, numa ininterrupta torrente com o poder de nos
transmitir as mais intensas emoções.
Tuesday, February 5, 2013
Atravessado na garganta
Horas, horas
sem fim,
pesadas, fundas,
esperarei por ti
até que todas as coisas sejam mudas.
Até que uma pedra irrompa
e floresça.
Até que um pássaro me saia da garganta
e no silêncio desapareça.
Eugénio de Andrade
pesadas, fundas,
esperarei por ti
até que todas as coisas sejam mudas.
Até que uma pedra irrompa
e floresça.
Até que um pássaro me saia da garganta
e no silêncio desapareça.
Eugénio de Andrade
Monday, February 4, 2013
Do meu coração ao teu
vou
buscar-te ao fim da tarde,
porque a noite só escurece contigo ao
meu lado, porque a noite aprende por ti
o caminho aberto das estrelas
vou buscar-te ao fim da tarde,
e verás como preparei a casa, como
escolhi a música, como, enfim, espalhei
os objectos mais impressionados contigo,
os que ganharam vida por se interporem
na espessura estreita que vai do meu
ao teu coração
e não mais te devolvo, correndo todos os
riscos de não amanhecer nunca
numa loucura propositada por ti
não mais te devolvo,
ocuparás o mundo debaixo e sobre mim,
e não haverá mais mundo sem que seja assim
valter hugo mãe in pornografia erudita
porque a noite só escurece contigo ao
meu lado, porque a noite aprende por ti
o caminho aberto das estrelas
vou buscar-te ao fim da tarde,
e verás como preparei a casa, como
escolhi a música, como, enfim, espalhei
os objectos mais impressionados contigo,
os que ganharam vida por se interporem
na espessura estreita que vai do meu
ao teu coração
e não mais te devolvo, correndo todos os
riscos de não amanhecer nunca
numa loucura propositada por ti
não mais te devolvo,
ocuparás o mundo debaixo e sobre mim,
e não haverá mais mundo sem que seja assim
valter hugo mãe in pornografia erudita
Sunday, February 3, 2013
Poder ilimitado
Mais à frente, ela viu os soldados da Rainha de Copas a
pintar de vermelho as flores brancas que ali existiam.
- Mas por que estão a pintar de vermelho as flores brancas?
- Plantámos flores brancas por engano. Como a Rainha só
gosta de flores vermelhas, se não as pintarmos dessa cor, ela manda cortar as
nossas cabeças, responderam eles.
No
Reino de Copas, tirando essa maluquice toda, tudo corria normalmente.
Alice no País das Maravilhas (conto infantil)
Saturday, February 2, 2013
O poente
Olhei o poente e vi as aves carregando o sol, empurrando o dia para outros aléns.
Mia Couto in O último voo do flamingo
Mia Couto in O último voo do flamingo
Thursday, January 31, 2013
Wednesday, January 30, 2013
À distância dos dias
o
tempo, subitamente solto pelas ruas e pelos dias,
como a onda de uma tempestade a arrastar o mundo,
mostra-me o quanto te amei antes de te conhecer.
eram os teus olhos, labirintos de água, terra, fogo, ar,
que eu amava quando imaginava que amava. era a tua
a tua voz que dizia as palavras da vida. era o teu rosto.
era a tua pele. antes de te conhecer, existias nas árvores
e nos montes e nas nuvens que olhava ao fim da tarde.
muito longe de mim, dentro de mim, eras tu a claridade.
José Luís Peixoto
como a onda de uma tempestade a arrastar o mundo,
mostra-me o quanto te amei antes de te conhecer.
eram os teus olhos, labirintos de água, terra, fogo, ar,
que eu amava quando imaginava que amava. era a tua
a tua voz que dizia as palavras da vida. era o teu rosto.
era a tua pele. antes de te conhecer, existias nas árvores
e nos montes e nas nuvens que olhava ao fim da tarde.
muito longe de mim, dentro de mim, eras tu a claridade.
José Luís Peixoto
Tuesday, January 29, 2013
Lençóis de vento
Em nome dos que choram,
Dos que sofrem,
Dos que acendem na
noite o facho da revolta
E que de noite
morrem,
Com esperança nos
olhos e arames em volta.
Em nome dos que
sonham com palavras
De amor e paz que
nunca foram ditas,
Em nome dos que rezam
em silêncio
E falam em silêncio
E estendem em
silêncio as duas mãos aflitas.
Em nome dos que pedem
em segredo
A esmola que os
humilha e os destrói
E devoram as lágrimas
e o medo
Quando a fome lhes
dói.
Em nome dos que
dormem ao relento
Numa cama de chuva
com lençóis de vento
O sono da miséria,
terrível e profundo.
Em nome dos teus
filhos que esqueceste,
Filho de Deus que
nunca mais nasceste,
Volta outra vez ao
mundo!
Ary dos Santos
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