Sunday, October 6, 2013

Enquanto espero

Deixem-me agora evocar, aos goles de lembrança.
Enquanto espero que ele volte, de novo, a este pátio.
Recordar tudo, de uma só vez, me dá sofrimento. Por isso, vou lembrando aos poucos.
Me debruço na varanda e a altura me tonteia. Quase vou na vertigem.
Sabem o que descobri? Que minha alma é feita de água.
Não posso me debruçar tanto. Senão me entorno e ainda morro vazia, sem gota.

Mia Couto in O fio das missangas - Espelho

Friday, October 4, 2013

O logro

Antes de sair de casa é avisada pela mãe que não deve seguir pela floresta, pois, é exactamente naquele local que o lobo mau costuma aparecer.
Porém, sempre curiosa por conhecer novos animaizinhos, Capuchinho Vermelho aventura-se pela floresta sem ligar às recomendações da mãe. Ali, encontra o lobo mau que descobre que a avó da Capuchinho está doente e que ela vai a caminho de casa dela para lhe levar o lanche.
- Onde mora a tua avó? Quis saber o lobo.
- Ainda falta um pouco para lá chegarmos. Informou a menina.
«Hum… que menina tão tenrinha! Se me despachar, posso almoçar a avó e saboreá-la à sobremesa.» Pensou o lobo.


Conto infantil dos Irmãos Grimm

Thursday, October 3, 2013

Desconhecimento

fico admirado quando alguém, por acaso e quase sempre
sem motivo, me diz que não sabe o que é o amor.
eu sei exactamente o que é o amor. O amor é saber
que existe uma parte de nós que deixou de nos pertencer.
o amor é saber que vamos perdoar tudo a essa parte
de nós que não é nossa. o amor é sermos fracos.
o amor é ter medo e querer morrer.

José Luis Peixoto in «A Criança em Ruínas», 1ª Ed. -  Vila Nova de Famalicão, Quasi Edições, 2001

Wednesday, October 2, 2013

Cultura popular

Logo que Outubro venha, procura a lenha.

provérbio

Tuesday, October 1, 2013

A folha voante

Dedicado à minha filha Carina

Tu és a folha de outono voante pelo jardim.
Deixo-te a minha saudade - a melhor parte de mim.


Cecília Meireles

Monday, September 30, 2013

Várias questões

Quem por lá passasse não podia deixar de reparar naquela janela. As estruturas de ferro enferrujado pelos anos, os elementos geométricos, e a subtileza com que a trepadeira a atravessou, pareciam sugerir todo um esplendor mítico. De repente, sentia-me do lado errado e, ansiava por transpor todo aquele sentimento enigmático que, me causava tanta curiosidade. Afinal, que concluir? Podia haver quem conhecesse bem o perigo e recomendasse prudência, mas, apesar de território duvidoso, desejava acrescentar mais uma experiência. Porque sempre procurei até ao fim. 

Sunday, September 29, 2013

A leveza dos passos


Saturday, September 28, 2013

Auroras nocturnas

 A noite é uma página escrita onde há uma vírgula depois de cada
 letra, um ponto depois de cada palavra, uma exclamação no fim de cada
 frase. Ao fim de cada período está o teu corpo, aberto num parêntese
 longo, que explica a súbita eclosão de auroras nocturnas.
 No fim de tudo estão os teus olhos, redondos como duas afirmações,
 loiros e despenteados.

Albano Martins (1930)

Friday, September 27, 2013

Um balão prestes a esvaziar

Concluiria que não existiu qualquer esclarecimento, quando alguém lhe interrompeu o pensamento, e mencionou que, nesta campanha, em lugar de se discutir as obras públicas se teria dado prioridade ao que as pessoas precisam, dando um maior ênfase à parte humana. Pudesse ela quebrar este ciclo negativo dominado por quem não apresenta nem resultados nem soluções, e recheado de promessas vãs, e tudo seria muito diferente. E, se houve uma altura em que os políticos fugiam dos cidadãos, agora eram os próprios cidadãos a fugir dos políticos. Não seria invulgar verificar que, os portugueses estão, certamente, mais atentos, e já lhe dizia a avó que, quando a dignidade do trabalhador estava em causa, uma pessoa melhor informada deixar-se-ia enganar muito menos. Irreconciliada com o mundo e, sobretudo, com o país, perante esta disfunção com a realidade, tinha decidido que, no próximo domingo, votaria em branco.

Thursday, September 26, 2013

A condução de um destino

A paixão pela tranquilidade acabaria por a encaminhar até paisagens mais campestres. É aí que se move com notável fluidez, e em moldes bem definidos, desafiando o estado de crise. Desligada de tudo o mais em seu redor, não só recorre a todo o tipo de experiências, como a sua prioridade será reconstituir aquilo que um dia lhe haveria pertencido. Só assim, mais tarde, o seu território se revelaria ilimitado.

Wednesday, September 25, 2013

Noite de fado




Não sei por que te foste embora. 
Não sei que mal te fiz, que importa, 
só sei que o dia corre e àquela hora, 
não sei por que não vens bater-me à porta. 
Não sei se gostas de outra agora, 
se eu estou ou não para ti já morta. 
Não sei, não sei nem me interessa, 
não me sais é da cabeça 
que não vê que eu te esqueci. 
Não sei, não sei o que é isto
já não gosto e não resisto 
não te quero e penso em ti. 
Não quero este meu querer no peito, 
não quero esperar por ti nem espero. 
Não quero que me queiras contrafeito, 
nem quero que tu saibas que eu te quero. 
Depois de este meu querer desfeito, 
nem quero o teu amor sincero. 
Não quero mais encontrar-te, 
nem ouvir-te nem falar-te, 
nem sentir o teu calor. 
Porque eu não quero que vejas 
que este amor que não desejas 
só deseja o teu amor.


Não sei porque te foste embora: original de Amália Rodrigues 
letra e música de José Galhardo e Frederico Valério

Tuesday, September 24, 2013

Entre aromas e cores

É um sonho ou talvez só uma pausa
na penumbra. Esta massa obscura
que ela revolve nas águas são estrelas.
Entre aromas e cores, um barco de calcário
prossegue uma viagem imóvel num jardim.
Vejo a brancura entre os astros e os ramos.
Dir-se-ia que o ser respira e se deslumbra
e que tudo ascende sob um sopro silencioso.
Nenhum sentido mas os signos amam-se
e o brilho e o rumor formam um mundo.

António Ramos Rosa (1924 - 2013) in Acordes, Quetzal

Monday, September 23, 2013

Marcação rítmica


Sunday, September 22, 2013

Ciclo de descobertas





A partir do olhar, fito-as indistintamente, aqui e ali. A algumas falta-lhes maturação, e, logo a seguir, quando olhamos para o céu, chama-nos à atenção as que suspensas se elevam com evidente leveza. A luz e as sombras realçam-lhes as cores quentes da folhagem e a luminosidade dos bagos. Por fim, na lentidão dum gesto, deito-lhes a mão com a cumplicidade do Rico, e de alma intensa, ambos ignoramos o pó e as impurezas, e, uma a uma, apreciamos o doce sabor das uvas.

Saturday, September 21, 2013

Quase um destino

uma espuma de sal bateu-me alto na cabeça,
nunca mais fui o mesmo,
passei por todos os mistérios simples, e agora estou tão humano: morro,
às vezes ressuscito para fazer uma grande surpresa a mim mesmo,
eu que nunca mais me surpreendo:
sou mais rápido —
falo de mim em estilo estritamente assassino:
é quase como se fosse o centro do planeta:
prontíssimo para o verbo e o milagre,
mas ressuscito ah então falo de exercício estilístico:
escritor de poemas, como se fosse uma intimidade, quase um destino, um mistério,
com os dias primeiros até às cenas botânicas do paraíso,
e digo:
administra a tua voz,
mas administra a tua dor primeiro
(a dor e a voz administrativas?)
                                              
Herberto Helder, in Servidões assírio & alvim, 2013

Friday, September 20, 2013

O refúgio

Esquecida de si e do tempo, o desejo de ouvir para além da música, desencadeava indisfarçáveis desafios. Na espuma dos dias, bem próxima do mar, apenas os búzios com tudo o que têm de impenetrável marcavam o ritmo e a preenchiam de sonoridade. No caso dela, o facto de certas melodias a levarem a emocionar-se mais do que outras, era suficiente para se perceber que, tinha encontrado naquele local um ponto de equilíbrio entre a realidade e a pura imaginação.

Thursday, September 19, 2013

Uma vida a naufragar

Depois de ter fechado tudo, abro de novo a porta
e corro cambaleante para a vazia escuridão
assusta-me a certas horas a companhia
do que não adormece
a resistência disso no nosso espaço
movido por outra forças

Mas também me ocorre acender primeiro a luz
e só depois
sentir um medo louco da casa que me acolhe
dos seus redemoinhos imperceptíveis
que julgo cada vez mais perto
como se estivesse para ser morto
às mãos do próprio Deus

Não sei bem acordar vivo destas coisas:
aproveito o ruído do entardecer e grito muito alto
deixo-te um instante só (um instante só)
para fechar os olhos que tanto ardem
ou atiro das margens folhas ao rio
para medir o tempo de uma vida
a naufragar

José Tolentino Mendonça in A Noite Abre Meus Olhos - Assírio & Alvim, 2006

Wednesday, September 18, 2013

Ao ar livre






Aproveitando os últimos dias quentes da estação, desta vez, o lanche – refrescante e saudável, foi organizado pela Teresinha, em sua casa, proporcionando a todos uma agradável tarde, neste final de Verão.

Tuesday, September 17, 2013

Monday, September 16, 2013

Acção e mudança

Num mundo perfeito, ao invés dos tempos difíceis que vivemos, o desenvolvimento das crianças seria, favoravelmente, marcado por um desafio à imaginação, com destaque para uma nova atitude e um renovado interesse, onde neste primeiro dia do ano lectivo a escolha recaísse por melhores conteúdos e substância.