Sunday, September 21, 2014

Sem domingos

Com que roupa
 vestirei minha alma
 agora que já não há domingos?

Mia Couto

Saturday, September 20, 2014

Exercício livre


Friday, September 19, 2014

Conjugação dos tempos

Relativamente próxima, a praia era apenas mais um atractivo, quando lhe sobravam alguns momentos de ócio. De um modo geral, a sua dimensão preenchia-lhe o vazio e mais não era que a expressão da latitude perfeita. 

Thursday, September 18, 2014

Pelos olhos adentro

Entrar de repente pelos olhos adentro e escancarar

as árvores: mas aquilo que amaste perdura.

Junto da água morna os animais aguardam o ruído

vegetal da noite, e as luzes bocejam

a mansidão das pernas esticadas: o amor

não tem tempo, e dura no que amaste.

Dura de repente nos olhos abertos e

a água que respira no flanco dos animais

bocejando devagar a chegada da noite e das

redes e os passos mornos dos caçadores,

e as luzes escancaradas do silêncio. Dura

esticado nas árvores, dura mansamente sem

palavras nem coisas, sem tempo para

aguardar as mãos do caçador e as redes

mornas respirando sobre a água: aquilo

que amaste perdura.



António Franco Alexandre in Sem palavras nem coisas -  Lisboa: iniciativas editoriais, 1974


Wednesday, September 17, 2014

Às escuras

Caminhei sempre para ti sobre o mar encrespado
na constelação onde os tremoceiros estendem
rondas de aço e charcos
no seu extremo azulado

Ferrugens cintilam no mundo,
atravessei a corrente
unicamente às escuras
construí minha casa na duração
de obscuras línguas de fogo, de lianas, de líquenes

A aurora para a qual todos se voltam
leva meu barco da porta entreaberta

o amor é uma noite a que se chega só



José Tolentino de Mendonça in A Estrada Branca

Tuesday, September 16, 2014

Momentâneo


Alice: Quanto tempo dura o que é eterno?

Coelho: Às vezes, apenas um segundo.


Lewis Carroll in Alice no País das Maravilhas

Monday, September 15, 2014

Perfume

Fica sempre, um pouco de perfume nas mãos que oferecem rosas

Judite Junqueira Vilela in uma canção gospel 

Sunday, September 14, 2014

Interrogação

     
Que há? Abrem-se fendas no ar que respiro vejo-lhe o fundo. Tens os olhos vasados. Qual de nós os dois "quero-Te" gritou?

 Luiza Neto Jorge in Difícil Poema de Amor – Poesia - Assírio & Alvim - 2ª edição - 2001

Saturday, September 13, 2014

Linha de excelência


Friday, September 12, 2014

História incerta

Em última instância, a ideia de incompletude não só se mantinha, como se ia insinuando cada vez mais com o passar dos dias. Na ausência de oportunidades, o tempo parecia-lhe escasso e o que buscava sem saber parecia-lhe um fôlego demasiado longo. Todavia, o que lhe faltava, e que afinal, nos falhava a todos era na verdade um futuro.

Thursday, September 11, 2014

Passos

Nave
Ave
Moinho
E tudo mais serei
Para que seja leve
Meu passo
Em vosso
Caminho.

Hilda Hilst  in Exercícios - Trovas de muito amor para um amado senhor I

Wednesday, September 10, 2014

Por ti

Por ti desço até ao fundo da noite,
desenraízo o tempo, culmino numa estrela,
vivo na imaginação de todas as aves
e acendo o futuro, num gesto antecipado.


Albano Martins

Tuesday, September 9, 2014

Um olhar de distância

Fisicamente, nunca se teria sentido tão bem. A partir do momento que chegara, o olhar fugira-lhe em direcção ao infinito. O brilho do sol e o azul do céu e do mar davam cor ao cenário de calor e, acima de tudo, o presente era, definitivamente, o lugar. Depois disto, tudo iria, irremediavelmente, mudar. A tarde do dia seguinte nunca seria tão completa ou nítida. 

Monday, September 8, 2014

Tudo será perfeito

Imagina que deus te fez para mim.
como se a maravilha que vivo fosse só a
consequência da sua vontade.
imagina que tudo será perfeito, mesmo que, tão
precipitadamente, entendamos ter encontrado o que não existe.


valter hugo mãe

Sunday, September 7, 2014

Esperarei por ti

Horas, horas sem fim,
pesadas, fundas,
esperarei por ti
até que todas as coisas sejam mudas
Até que uma pedra irrompa
e floresça.
Até que um pássaro me saia da garganta
e no silêncio desapareça.

Eugénio de Andrade

Saturday, September 6, 2014

Vivência urbana


Friday, September 5, 2014

Os preparativos

Quando a água começou a ferver, escaldou o bule para o chá, e foi trazendo para a mesa os biscoitos de manteiga acabados de sair do forno. A todo o instante ele estaria aí, evitando assim, aquela sensação de inquietude de última da hora. À partida tudo parecia calmo à luz ténue do final da tarde, e a sua atenção estava já dirigida para os minutos seguintes.  O silêncio propiciava um clima reflexivo e o contacto com alguém levava-a a imaginar o momento de partilha. 

Thursday, September 4, 2014

Espaço lunado

 Se perguntarem: das artes do mundo?
 Das artes do mundo escolho a de ver cometas
 despenharem-se
 das grandes massas de água: depois, as brasas pelos recantos,
 charcos entre elas.
 Quero na escuridão revolvida pelas luzes
 ganhar baptismo, ofício.
 Queimado nas orlas de fogo das poças.
 O meu nome é esse.
 E os dias atravessam as noites até aos outros dias, as noites
 caem dentro dos dias – e eu estudo
 astros desmoronados, mananciais, o segredo.

 Laranja, peso, potência

 Laranja, peso, potência.
 Que se finca, se apoia, delicadeza, fria abundância.

 A matéria pensa. As madeiras
 incham, dão luz. Apuram tão leve açúcar,
 tal golpe na língua. Espaço lunado onde a laranja
 recebe soberania.
 E por anéis de carne artesiana o ouro sobe à cabeça.
 A ferida que a gente é: de mundo
 e invenção. Laranja
 assombrosamente. Doce demência, arrancada à monstruosa
 inocência da terra.

 Não toques nos objectos imediatos

 Não toques nos objectos imediatos.
 A harmonia queima.
 Por mais leve que seja um bule ou uma chávena,
 são loucos todos os objectos.
 Uma jarra com um crisântemo transparente
 tem um tremor oculto.
 É terrível no escuro.
 Mesmo o seu nome, só a medo o podes dizer.
 A boca fica em chaga.

Herberto Helder


Wednesday, September 3, 2014

A interpelação

Ia capuchinho vermelho pelo caminho quando, de repente, encontra o lobo mau. Este, com uma voz muito doce, disse-lhe:
- Olá Capuchinho Vermelho! Que prazer conhecer-te!
Ela achou que o lobo mau até era simpático, ao contrário do que toda a gente dizia, incluindo a sua própria mãe. Mesmo assim, respondeu-lhe:
- Desculpe Sr. Lobo, mas a minha mãe proibiu-me de falar com pessoas que não conheço.
- Mas eu sou o lobo, o mais popular de todos os animais do bosque! Não há problema nenhum. Todos me conhecem bem! Onde vais com essa cesta?


Irmãos Grimm in Capuchinho Vermelho 

Tuesday, September 2, 2014

A viagem

As mágoas e fracassos do passado contrastavam com a alegria do presente, ainda que, de vez em quando, vertesse uma lágrima ou outra. Apesar de alguma nostalgia, em boa hora se teria recomposto sem que um dia jamais se assemelhasse ao outro. A noção do tempo que se perdeu e um certo sentimento de colapso iam-se tornando irrelevantes e os seus sonhos não pareciam perder-se nunca. Com efeito, lado a lado com os tons quentes do verão e o ritmo galopante dos dias, os dissabores acabariam inevitavelmente por se diluir e permitir-lhe readaptar-se. O tempo não apagaria memórias, mas transformava-lhe as fragilidades em mais-valias. O que viria a seguir seria, indiscutivelmente, uma trajectória ascendente.