Saturday, July 18, 2015

Projecto artístico


Friday, July 17, 2015

Uma nesga de sol

Nunca te esqueci - é este um amor maior
 que atravessa a vida e resiste à cicatriz
 do tempo. O que ontem me disseste agora
 o ouço, como se nada tivesse interrompido
 a magia do instante em que as nossas bocas
 se aguardavam na distância de um beijo e
 o olhar tocava o corpo antes da mão. Se

 hoje vieres por esse livro que deixaste (e cuja
 lombada acariciei todos os dias que durou a tua
 ausência como uma nesga de sol acaricia um
 rosto no inverno), encontrarás a sopa a fumegar
 na mesa, e a camisa engomada no cabide, e os
 lençóis da cama imaculados, e um corpo pronto
 para qualquer aventura - e ainda o cão deitado
 à porta, à tua espera, como na véspera de partires.

 Porque os anos não contam para quem assim ama.

 Maria do Rosário Pedreira


Thursday, July 16, 2015

Desejo

Não te beijo e tenho ensejo
Para um beijo te roubar
 O beijo mata o desejo
 E eu quero-te desejar.


António Aleixo

Wednesday, July 15, 2015

Tuesday, July 14, 2015

Clube das Letras





«Nunca se sabe o que uma viagem pode trazer ao íntimo do coração» Lídia Jorge in a Instrumentalina.

Monday, July 13, 2015

Alinhamento


Sunday, July 12, 2015

A fractura

A falta de conhecimento da História e das consequências que daí poderiam advir demonstravam a incapacidade de despertar de um pesadelo maior. Divididos, faltava-lhes a compaixão e a abertura que os transformara em intransigentes personagens. O medo parecia, ainda, ser a única razão que os movia em busca da solução dum problema do qual teriam lucrado em juros e que, no final, lhes poderia vir a sair caro.

Friday, July 10, 2015

Thursday, July 9, 2015

Pássaro nulo

Pássaro nulo
a configuração da tua ausência
o corpo a preencher-se
em ressalvas de medo
ao meu lado
doìdamente longe

Dir-te-ia do sólido
confronto que imagino
ou do conforto de te poder ter
em figura de estilo


Ana Luisa Amaral

Wednesday, July 8, 2015

Aquele

aquele que o meu coração ama
partiu às cegas sem descobrir
as húmidas palavras que se espalham
à sombra dos ciprestes
contando os minutos que faltam
para a vertigem do corpo onde o aguardo


Alice Vieira

Tuesday, July 7, 2015

Memórias

Poiso na tua memória. Sorris
Nem tocas com a mão para não me
afugentar
                   Imóvel fico da tua cor



Teresa Rita Lopes in A fímbria da fala

Monday, July 6, 2015

O exercício da magia

Por isso ele era rei, e alguém
 se punha diante da realeza para ter um pensamento, uma palavra
súbdita: dá-me um nome, uma
 baforada
 desfere o ceptro contra a minha testa para eu ver
 uma constelação maior que onze varas,
 enche de hélio o espaço reservado à minha glória quando me volto
 na escuridão com toda a potência
dos raios, dizia, o torso envolto pelas ramagens
 do fogo,
 bate-me na testa e que eu seja a minha luz, onze
varas de luz para os braços torcidos,
uma camisa aos rasgões brilhantes por força
da entrada e saída
do ar, porque de ti recebo a soberania e lanço pela boca
 petróleo a arder como no circo dos prodígios
 fazem os reis terríveis,
 por isso também eu tenho o poder e o sítio e o exercício
 desta magia: a realeza de uma combustão,
acto, verbo,
e em estado natural os elementos:
 madeira, cristal e ouro, e o ar movendo
 o poema número a número.
  


 Herberto Helder in Poesia Toda, Lisboa: Assírio & Alvim, 1996

Sunday, July 5, 2015

Momento-chave


Num mundo sem unidade, o voto foi de esperança e a palavra de ordem NÃO - expressiva e de coragem, sem se deixar intimidar por parte de poderes instalados e com a firmeza do orgulho nacional.

Saturday, July 4, 2015

Pausa


Wednesday, July 1, 2015

O mar

tanto me faz, doido de nada
ou doido de tudo, no pasto
do vento, os olhos magros
a recusar imagens, uma
palavra eleita pela boca, um
nome impossível de atribuir, já
deus reclamando a posse do
mundo, já eu na rama do
passado, só um fogo pálido
onde o mar se vem aquecer


 valter hugo mãe in três minutos antes de a maré encher - quasi 2000


Tuesday, June 30, 2015

Clube de Letras





    «O amor é tudo - excepto o que deveria ser.»

    Luisa Monteiro in Vaca-Loura

Monday, June 29, 2015

Sunday, June 28, 2015

Ao domingo

Dá-me, um sorriso ao domingo,
 Para à segunda eu lembrar.
 Bem sabes: sempre te sigo
 E não é preciso andar.

Fernando Pessoa


Saturday, June 27, 2015

Friday, June 26, 2015

Até à vista

Eram sete e meia.
O mais tarde que podias entrar era até às oito
e depois das oito tornava-se reparado.
Havia ordem no mundo
e meia-hora para nós,
meia-hora que não foi como queríamos
meia-hora em que cada um de nós nos prejudicava
habituados que estávamos a não nos termos visto nunca.
Levámos meia-hora a combinar outra hora para nós
meia-hora que afinal só começou depois de terminada
ao despedirmo-nos até à vista.
E até tornar a ver-te
eu não me senti, nem a fome, nem a sede
nem outra vontade que tu,
fiz como os poetas
que apagam a realidade
para lhe pôr outra melhor por cima.


José de Almada Negreiros in Poemas - Lisboa: Assírio & Alvim, 2005