Thursday, August 15, 2013

Nasci para cantar o fado




Meu amor, porque me prendes?
Meu amor, tu não entendes,
Eu nasci para ser gaivota.


Meu amor, não desesperes,
Meu amor, quando me queres
Fico sem rumo e sem rota. 

Paulo Valentim (excerto do fado Segredos)

Wednesday, August 14, 2013

O inalcançável

O inalcançável é sempre azul.

Clarice Lispector

Tuesday, August 13, 2013

Lamechices

Foi-as coleccionando, ao longo dos dias. Soltas, aqui e ali, deram para encher um pequeno balde. Num dado momento, dispôs as conchinhas, uma a uma, em forma de um coração, onde cabia todos os sonhos. Ao olhar de quem passava o gesto não seria inédito, contudo, irreflectidamente apaixonada, ela sentia que tinha ganho uma alma nova conseguindo expressar um desejo explícito. 

Monday, August 12, 2013

À beira do mar

Como quem procura conchas à beira do mar,
escolho as palavras para te dizer,
quando o silêncio dos teus braços
vestir o frio dos meus ombros.

Luísa Dacosta


Sunday, August 11, 2013

Mar de Agosto


 Deixa ficar comigo a madrugada,
 para que a luz do Sol me não constranja.
 Numa taça de sombra estilhaçada,
 deita sumo de lua e de laranja.

 Arranja uma pianola, um disco, um posto,
 onde eu ouça o estertor de uma gaivota...
 Crepite, em derredor, o mar de Agosto...
 E o outro cheiro, o teu, à minha volta!

 Depois, podes partir. Só te aconselho
 que acendas, para tudo ser perfeito,
 à cabeceira a luz do teu joelho,
 entre os lençóis o lume do teu peito...

 Podes partir. De nada mais preciso
 para a minha ilusão do Paraíso.


 David Mourão-Ferreira  in Infinito Pessoal ou a Arte de Amar, Guimarães Editores 1963

Saturday, August 10, 2013

O brilho da ribalta


Friday, August 9, 2013

Quantificação

Quando para eles olhamos, desprendem-se das árvores deixando antever o sabor que a cor lhes acentua. Toda a beleza é o começo dum fruto. Pêssegos, ameixas, cerejas, melões e mais uma infinidade, circulam como uma tresloucada roda da fortuna, unicamente, para o nosso proveito. E, quão generoso é o Verão! Melhor dizendo, pelos pomares, até à boca, os gestos não escondem o prazer, sem pressas, da sua degustação.

Thursday, August 8, 2013

Última gota


 Mas há a vida
 que é para ser
 intensamente vivida, há o amor.
 Que tem que ser vivido
 até a última gota.
 Sem nenhum medo.
 Não mata.


Clarice Lispector

Wednesday, August 7, 2013

Rosa esquerda

rosa esquerda, plantei eu num antigo poema virgem,
e logo ma roubaram,
logo me perderam o pequeno achado,
mas ninguém me rouba a alma,
roubam-me um erro apenas que acertava só comigo,
um umbigo, um nó,
um nome que só em mim era floral e único


herberto helder in servidões, 2013

Tuesday, August 6, 2013

A flor de acaso


 Flor de acaso ou ave deslumbrante,
 Palavra tremendo nas redes da poesia,
 O teu nome, como o destino, chega,
 O teu nome, meu amor, o teu nome nascendo
 De todas as cores do dia!


 Alexandre O'Neill in No Reino da Dinamarca, Obra Poética (1951-1965), 2.ª edição

Monday, August 5, 2013

Representação histórica








Entre o passado e o presente, percorri todo um espaço de memória e fascínio na grandiosidade do centro histórico de Silves, à medida que, fui descobrindo artesãos, figurantes e objectos numa extraordinária retrospectiva do tempo que evocou manjares, festa e muita música numa versão carregada de esplendor. 

Sunday, August 4, 2013

A solução

Dorothy seguiu um caminho de pedras amarelas e viu um espantalho num campo de milho e libertou-o.
– Não sei como lhe agradecer- disse o espantalho.
- Faz-me falta um cérebro.
– Vem comigo! O Mágico de Oz poderá dar-te um - falou a menina.
Mais adiante, encontrou um homem de lata enferrujado. Depois que Dorothy o untou de óleo, o homem lata agradeceu e disse que gostaria de um coração para ser generoso.
– Vem connosco. O Mágico de Oz vai conseguir arranjar-te um -  disse Dorothy.
No caminho, um leão atacou o Totó.
– Mas que leão cobarde! — gritou Dorothy, zangada. O leão recuou e concordou. 

– Então, vem connosco. O Mágico de Oz vai dar-te coragem - disse Dorothy com pena do leão.

 L. Frank Baum in O feiticeiro de Oz 

Saturday, August 3, 2013

Infinita melancolia


Friday, August 2, 2013

Projectos

Para a esmagadora maioria a probabilidade de gozar férias será, este ano, remota. Contudo, neste mês, considerado de excelência, as férias assumem um papel absolutamente imperativo e a única forma de fugir de tudo aquilo que nos leva a partir em primeiro lugar. Em colapso com uma programação habitual, inquietações e incertezas dão lugar a um mundo novo de locais e situações diversificadas que, recriamos para além do quotidiano. O ritmo, simplesmente, abranda e a rotina deixa de ser. Neste ponto, poderíamos dizer que nada há melhor que, desimpedido o caminho nos deixemos embarcar numa viagem de sonho. Infelizmente, para alguns, fica demasiado distante e é por isso inalcançável.

Thursday, August 1, 2013

Agosto

Quem em Agosto ara, riquezas prepara.

provérbio
 

Wednesday, July 31, 2013

Dia de festa



Em mais um aniversário da nossa amiga Teresinha que, contou com a presença de tantos convidados especiais, o jantar, no hotel Paraíso, foi descontraído e animado, terminando com ritmos quentes na pista de dança. Com um brilho nos olhos, e visivelmente feliz, a noite foi definitivamente dela.

Tuesday, July 30, 2013

O Verão é de azulejo


Deixarei os jardins a brilhar com seus olhos
detidos: hei-de partir quando as flores chegarem
à sua imagem. Este verão concentrado
em cada espelho. O próprio
movimento o entenebrece. Mas chamejam os lábios
dos animais. Deixarei as constelações panorâmicas destes dias
internos.

Vou morrer assim, arfando
entre o mar fotográfico
e côncavo
e as paredes com as pérolas afundadas. E a lua desencadeia nas grutas
o sangue que se agrava.

Está cheio de candeias, o verão de onde se parte,
ígneo nessa criança
contemplada. Eu abandono estes jardins
ferozes, o génio
que soprou nos estúdios cavados. É a cólera que me leva
aos precipícios de agosto, e a mansidão
traz-me às janelas. São únicas as colinas como o ar
palpitante fechado num espelho. É a estação dos planetas.
Cada dia é um abismo atómico.


E o leite faz-se tenro durante
os eclipses. Bate em mim cada pancada do pedreiro
que talha no calcário a rosa congenital.
A carne, asfixiam-na os astros profundos nos casulos.
O verão é de azulejo.
É em nós que se encurva o nervo do arco
contra a flecha. Deus ataca-me
na candura. Fica, fria,
esta rede de jardins diante dos incêndios. E uma criança
dá a volta à noite, acesa completamente
pelas mãos.


Herberto Helder in Cobra - Poesia Toda
Assírio & Alvim 1979

Monday, July 29, 2013

Memórias de instantes

Insinuantes, e entrecortadas pela luz, dum canto da cozinha, tomam-me conta das emoções, extravasando a exaltação dos encontros diários com a natureza. Na aceleração dos dias, guardo cada uma destas flores, recuperando as mais fantásticas paisagens, sempre, na companhia do Rico. E, como as poderia eu perder?
                                                                          

Sunday, July 28, 2013

Ritmos marcados


Saturday, July 27, 2013

Até morrer

Eu não sei senão amar-te,
Nasci para te querer.
Ó quem me dera beijar-te,
E beijar-te até morrer.


Fernando Pessoa

Friday, July 26, 2013

Nós e o gato

Às vezes o gato fitava
com estranheza
o que de nós (um excesso)
se interpunha entre nós e o gato,
a nossa presença.


manuel antónio pina in moradas todas as palavras
poesia reunida assírio & alvim 2012

Thursday, July 25, 2013

Fogo de Verão


A boca,
onde o fogo
de um verão
muito antigo cintila,
a boca espera
(que pode uma boca esperar senão outra boca?)
espera o ardor do vento
para ser ave e cantar.


Levar-te à boca,
beber a água mais funda do teu ser
se a luz é tanta,
como se pode morrer?


Eugénio de Andrade

Wednesday, July 24, 2013

Nas nuvens

o tempo, subitamente solto pelas ruas e pelos dias,
como a onda de uma tempestade a arrastar o mundo,
mostra-me o quanto te amei antes de te conhecer.
eram os teus olhos, labirintos de água, terra, fogo, ar,
que eu amava quando imaginava que amava. era a tua
a tua voz que dizia as palavras da vida. era o teu rosto.
era a tua pele. antes de te conhecer, existias nas árvores
e nos montes e nas nuvens que olhava ao fim da tarde.
muito longe de mim, dentro de mim, eras tu a claridade.

José Luís Peixoto in A Criança Em Ruínas, Edições Quasi, 6.ª Edição, 2007

Tuesday, July 23, 2013

Superfícies reais


A partir do momento que, avistamos os campos de tomilho, avançamos, atraídos pela fragrância intensa. Colho-o em qualquer ocasião, mas é no Verão que as suas flores miudinhas desabrocham num contínuo fluir da paisagem. Apanho um raminho aqui, e mais outro ali, para em casa, aromatizar o azeite, e em qualquer altura do ano, dar um sabor especial aos meus temperos na cozinha!

Monday, July 22, 2013

Crise criativa

Enquanto, com toda a calma do mundo, se aguardava por revelações, veio-me à ideia aqueles intermináveis momentos duma época em que, cúmplices, numa metodologia de movimentos frenéticos, abríamos e fechávamos aquele pedacinho de papel, quando uma série de partes funcionando como elementos de ligação contribuíam para um todo. Em rigor, o resultado era sempre inconsequente, e nesta prática repetitiva havia sempre a possibilidade de refazer as escolhas dos números ou cores, cujos resultados poderiam gerar diversas leituras e interpretações, reais ou inventadas, conhecendo o autor ou autora, o seu princípio e o seu fim. Condenados a que assim se perpetue, a encenação do exercício, nos dias que correm, demonstra quanta falta nos faz a capacidade de reinvenção na incerteza deste jogo pouco convincente.

Sunday, July 21, 2013

Os enigmas do destino


Saturday, July 20, 2013

Os sons de Cuba






A alegria e sensualidade das danças latino-americanas distinguem-se por atrair todos que, de uma forma apaixonada e espírito de grupo, se rendem aos ritmos e sons estimulantes de tirar o fôlego.

Friday, July 19, 2013

O Bruno

no início o bruno era o
verbo, depois, veio do fundo
da paisagem e depositou-se em
movimento por toda a parte, apenas
a seguir se criaram os animais e
as plantas e toda a evolução das
espécies aconteceu


Valter Hugo Mãe in Contabilidade 
Poesia 1996-2010 - Alfaguara (2010)

Thursday, July 18, 2013

Esvoaçando

As palavras voam. E às vezes pousam.

Cecília Meireles

Wednesday, July 17, 2013

Um inexplicável anseio

É o risco a barreira entre o certo e o errado? O que nos leva a pisá-lo? O facto que, nesta vida, tudo é passageiro, precário e frágil, e nos faz pensar que amanhã ninguém se vai lembrar, quando ou se formos apanhados? Por vezes, é preciso coragem. Um certo descaramento, até. Admitir, implicitamente, que o pisámos, mesmo vacilando entre hesitações assumidas. Sim, fui clara, tem tudo a ver com a resistência humana, e aquele instante de desejo que necessitamos, desesperadamente, de satisfazer. 

Tuesday, July 16, 2013

O sentido do círculo


Monday, July 15, 2013

O lado do inconsciente

De há duas semanas para cá, continuamos a vê-los a toda a hora, por todo o lado, dando asas à sua imaginação. Desprovidos de racionalidade, e sem que ninguém os compreenda, exigem o impossível só para nos confundir e provocar. Os seus conceitos são, por vezes, abstractos, utilizando artifícios desconcertantes, em total ruptura com a realidade. A forte instabilidade e as suas faltas de autenticidade tornaram-se uma nova forma de humor que, tudo extravasa sem atingir os objectivos pretendidos. Insistir na mesma lógica ou optar por novos rumos que augurem outros resultados, eis a questão.

Sunday, July 14, 2013

A preto e branco

Há dias menos conseguidos, em que tudo corre mal, e tanta coisa não abona em nosso favor. Cinzenta e opaca, a vida parece deixar de nos seduzir, ao sentirmos a escuridão de uma forma mais intensa. O efeito desta história desperdiçada e difícil de encaixar, com tanta gente infeliz, pode ser de asfixia. Pela frente temos que tentar adivinhar o que se segue, à espera que caminhos paralelos se toquem, numa bonita manhã de sol.

Saturday, July 13, 2013

A fuga

Ao perceber que a porta estava apenas encostada, resolveu entrar.
À primeira vista, a menina, reparou que sobre a mesa havia três tigelinhas de papa de aveia. Como estava com muita fome, resolveu provar.
Provou, então, a papa da tigela maior, que pertencia ao pai urso, mas achou-a muito quente.
Provou da tigela do meio, da mãe ursa, e achou-a muito fria. Provou da tigelinha mais pequena e achou-a tão deliciosa, que sem resistir comeu a papa toda do bebé urso.
Depois, acabou por adormecer e só acordou com os gritos dos ursos que, entretanto, tinham regressado a casa. Ficou assustadíssima quando viu os três, saltou da cama, correu pelo quarto, escapou-se pela janela e continuou a correr pela floresta, tão depressa quanto suas pernas permitiam.



Robert Southey in os três ursos, 1837