Monday, October 20, 2014

À tardinha

Se tu viesses ver-me hoje à tardinha,
A essa hora dos mágicos cansaços,
Quando a noite de manso se avizinha,
E me prendesses toda nos teus braços...

Quando me lembra: esse sabor que tinha
A tua boca... o eco dos teus passos...
O teu riso de fonte... os teus abraços...
Os teus beijos... a tua mão na minha...

Se tu viesses quando, linda e louca,
Traça as linhas dulcíssimas dum beijo
E é de seda vermelha e canta e ri

E é como um cravo ao sol a minha boca...
Quando os olhos se me cerram de desejo...
E os meus braços se estendem para ti...


Florbela Espanca in Charneca em Flor

Sunday, October 19, 2014

Algo ainda não é flor

Não sei se respondo ou se pergunto.
Sou uma voz que nasceu na penumbra do vazio.
Estou um pouco ébria e estou crescendo numa pedra.

Não tenho a sabedoria do mel ou a do vinho.

De súbito, ergo-me como uma torre de sombra fulgurante.
A minha tristeza é a da sede e a da chama.
Com esta pequena centelha quero incendiar o silêncio.
O que eu amo não sei. Amo. Amo em total abandono.
Sinto a minha boca dentro das árvores e de uma oculta nascente.
Indecisa e ardente, algo ainda não é flor em mim.
Não estou perdida, estou entre o vento e o olvido.
Quero conhecer a minha nudez e ser o azul da presença.
Não sou a destruição cega nem a esperança impossível.
Sou alguém que espera ser aberto por uma palavra.


António Ramos Rosa

Saturday, October 18, 2014

Friday, October 17, 2014

Ser gato

Nunca soube o teu nome. Entraste numa tarde,
por engano, a perguntar se eu era outra pessoa -
um sol que de repente acrescentava cal aos muros,
um incêndio capaz de devorar o coração do mundo.

Não te menti; levantei-me e fui levar-te à porta certa
como um veleiro arrasta os sonhos para o mar; mas,
antes de te deixar, disse-te ainda que nessa tarde
bem teria gostado de chamar-me outra coisa - ou
de ser gato, para poder ter mais do que uma vida.

  
Maria do Rosário Pedreira in nenhum nome depois - gótica, 2004

Thursday, October 16, 2014

Não me acordes

De amor nada mais resta que um Outubro

e quanto mais amada mais desisto:
quanto mais tu me despes mais me cubro
e quanto mais me escondo mais me avisto.

E sei que mais te enleio e te deslumbro
porque se mais me ofusco mais existo.
Por dentro me ilumino, sol oculto,
por fora te ajoelho, corpo místico.

Não me acordes. Estou morta na quermesse
dos teus beijos. Etérea, a minha espécie
nem teus zelos amantes a demovem.

Mas quanto mais em nuvem me desfaço
mais de terra e de fogo é o abraço
com que na carne queres reter-me jovem.




Natália Correia

Wednesday, October 15, 2014

A luz que estremecia

tão fortes eram que sobreviveram à língua morta,
esses poucos poemas acerca do que hoje me atormenta,
décadas, séculos, milénios,
e eles vibram,
e entre os objectos técnicos no apartamento,
rádio, tv, telemóvel,
relógios de pulso,
esmagam-me por assim dizer com a sua verdade última
sobre a morte do corpo,
dizem apenas: igual ao pó da terra que não respira,
o que é falso, pois eu é que deixarei de respirar
sobre o pó da terra que respira,
entre o poema sumério e este poema de curto fôlego,
mas que talvez respire um dia,
ou dois, ou três dias mais:
quanto às coisas sumérias: as mãos da rapariga,
o cabelo da estreita rapariga,
a luz que estremecia nela,
tudo isso perdura em mim pelos milénios fora,
disso, oh sim, é que eu estou vivo e estremeço ainda


Herberto Helder in A Morte sem Mestre - ed. Porto Editora, 2014

Tuesday, October 14, 2014

Noite de ópera






Árias e duetos de óperas de Donizetti, Rossini, Puccini, Bellini, Verdi e Bizet. Espectáculo narrado por Paulo Segurado, com a participação da soprano Carla Pontes, o baixo-barítono Francisco Brazão e a pianista Cristiana Silva.

Monday, October 13, 2014

O abandono

     Calo-me.
     Reparei de repente que não estavas aqui. Pus-me a falar a falar. Coisas
de mulher desabitada.

Luiza Neto Jorge in Difícil Poema de Amor – Poesia - Assírio & Alvim - 2ª edição - 2001

Sunday, October 12, 2014

O despertar

Depois de viver verdadeiras aventuras num mundo imaginário, na companhia de tantas singulares personagens, é que Alice se dá conta que tudo não passara de um sonho e que estava de volta à realidade, acordando daquela viagem absolutamente fantástica.

Saturday, October 11, 2014

Friday, October 10, 2014

Proteja-se

Cuide-se como se você fosse de ouro. Ponha-se você mesma de vez em quando numa redoma e poupe-se.


 Clarice Lispector

Thursday, October 9, 2014

Coisas leves

Não sei tecer
senão espumas,
nuvens
e brumas.
Coisas breves,
leves,
que o vento desfaz.

Como prender-te
em teia tão frágil?


Luísa Dacosta in A Maresia e o Sargaço dos Dias

Wednesday, October 8, 2014

Curto episódio

Era apenas mais um final de tarde, e o facto de nunca querer perder o que quer que fosse. Naquele dia sombrio, observava duas crianças apostadas em moldar um castelo à beira mar – uma lufada de criatividade, pronto a desmoronar-se à mercê de uma onda mais inconsequente. Nada de somenos importância, visto a sua diferencialidade não desaparecer, mas pelo contrário, abrir novas possibilidades de um jogo cuja mecânica seria infinita.

Tuesday, October 7, 2014

A manhã

Não aprofundes o teu tédio.
Não te entregues à mágoa vã.
O próprio tempo é o bom remédio:
bebe a delícia da manhã.


Manuel Bandeira

Monday, October 6, 2014

Objectiva indiscreta


Sunday, October 5, 2014

Sequência final

A dada altura, quando nada mais parecia vibrar à sua volta o momento exigia-lhe um novo olhar. O que procurava, afinal? Nesse sentido, redesenha um inimaginável refúgio para a realidade, num mundo à parte no qual redescobre a poesia, ao ritmo da ondulação. 

Saturday, October 4, 2014

A dúvida

 Primeiro sabem-se as respostas.
As perguntas chegam depois,
como aves voltando a casa ao fim da tarde
e pousando, uma a uma, no coração
quando o coração já se recolheu
de perguntas e respostas.

Que coração, no entanto pode repousar
com o restolhar de asas no telhado?
A dúvida agita
os cortinados
e nos sítios mais íntimos da vida
acorda o passado.

Porquê, tão tardo, o passado?
Se ficou por saldar algo
com Deus ou com o Diabo
e se é o coração a saldo
porquê agora, Cobrança,
quando medo e esperança

se recolhem também sob
lembranças extenuadas?
Enche-se de novo o silêncio de vozes despertas,
e de poços, e de portas entreabertas,
e sonham no escuro
as coisas acabadas.




Manuel António Pina

Friday, October 3, 2014

O atalho

Quando o Capuchinho Vermelho viu como os raios de sol dançavam entre as árvores, e como havia lindas flores por todo o lado, pensou: "Se eu levar à avó um ramo fresco, irei dar-lhe uma grande alegria." Então, desviou-se do seu percurso e entrou no bosque à procura de mais flores. E cada vez que apanhava uma, pensava que mais longe haveria outra correndo a apanhá-la, de tal forma que penetrou cada vez mais na floresta. Só quando já tinha tantas flores que não podia carregar mais é que o Capuchinho Vermelho se lembrou da avó e retomou o caminho para sua casa.

 Charles Perraut in O Capuchinho Vermelho

Thursday, October 2, 2014

Concerto



A obra de António Pinto Vargas num espectáculo concebido e interpretado pelo próprio foi a proposta que escolhemos para celebrar o dia mundial da música. 

Wednesday, October 1, 2014

A música

Esta noite vou servir um chá
Feito de ervas e jasmim
E aromas que não há
Vou chamar a música
Encontrar à flor de mim
Um poema de cetim

Rosa Lobato de Faria

Tuesday, September 30, 2014

Uma ausência de nome

Em voz alta, ensaiei o teu nome:
a palavra partiu-se
Nem eco ínfimo neste quarto
quase oco de mobília

Quase um tempo de vida a dormir
a teu lado e o desapego é isto:
um eco ausente, uma ausência de nome
a repetir-se

saber que nunca mais: reduzida
a um canto desta cama larga,
o calor sufocante

Em vez: o meu pé esquerdo
cruzado em lado esquerdo
nesta cama

O teu nome num chão
nem de saudades


Ana Luisa Amaral in Se fosse um intervalo

Monday, September 29, 2014

Jogos de sons



A partir de uma pluralidade de estilos, o concerto de jazz que, marcou o início do Outono, trouxe-nos uma série de peças onde acordes, tempos e compassos fluíram com grande engenhosidade. Dificilmente explicável torna-se impossível não se ficar fascinado com a espontaneidade de tão diferentes possibilidades musicais.

Sunday, September 28, 2014

Aquela praia

De todos os cantos do mundo
Amo com um amor mais forte e mais profundo
Aquela praia extasiada e nua,
Onde me uni ao mar, ao vento e à lua.


Sophia de Mello Breyner Andresen

Saturday, September 27, 2014

Abandonada pelo tempo


Friday, September 26, 2014

Memorável

Tudo que é bom
Dura o tempo necessário
Para ser inesquecível


Fernando Pessoa

Thursday, September 25, 2014

Nobre cabeça

Como se poderia desfazer em mim a tua nobre cabeça, essa
torre deslumbrada pelo mudo calor dos dias, pelo
brilhante gelo nocturno? É pela cabeça
que os mortos maravilhosamente pesam
no  nosso coração. Essas flores intangíveis para as quais
temos medo de sorrir, as armas
lavradas, as liras que estremecem e pendem
sobre os rios agitados das coisas. Só o amor as abre
e vê sua confusa e grave geografia, as fontes
livres de onde os pensamentos crescem
como a folhagem iluminada das antigas idades
do ouro.

Eu próprio levanto minha exígua cabeça de vivo,
procuro colocar-me num ponto irradiante
da terra, olhar de frente
com toda a inspiração do meu passado, e estar
à altura dos mortos, na zona
esplêndida e vasta
da sua nobreza - receber essa espécie de força
indestrutível
que envolve a cabeça montada sobre os dias e dias,
de que as rosas bebem  o jeito aéreo e a boca
a delicadeza misteriosa.

Existem árvores cercando os animais sonhadores, o grande
arco das eras com os fogos rápidos
presos como campânulas, e a fixa vontade
do homem ardendo e gelando
no tempo. À beira dos rios canta-se ou deixa-se
que as mãos se gastem, deslumbradas
do seu poder, da sua grande miséria
como um sonho. Um nome, contudo, existe
suspenso sobre as estações do ano. Essa cabeça
dos mortos - a tua cabeça aérea como o verde
das pedras ou o movimento
das corolas frias,
essa cabeça sumptuosa, rodeada de estreitas
víboras -
sobe do nosso, do meu coração, até que a minha
mesma cabeça
nada mais seja que a possessiva, doce cabeça
dos mortos.

herberto helder in elegia múltipla, poema I - poesia toda - assírio & alvim 1996


Wednesday, September 24, 2014

O regresso

Havia Verões cuja memória se não queria perder e, apenas reforçavam o desfilar de imagens, na maioria dos casos junto ao mar. Coisas banais que, pela sua dimensão, Mariana ia recuperando uma a uma. e se viriam a completar. O som prolongado das ondas do mar, as mudanças bruscas de marés, e o despojamento sublime de toda aquela grandeza, e por aí fora. Sim, esse era, sem dúvida, o seu cenário. Quase perfeito. Recuperado de um simples sopro no espaço que, a bem dizer, precisou de reinventar. 

Tuesday, September 23, 2014

Estado de alma

Estou olhando os frutos repousados

e as pequenas sombras alongadas
sobre a mesa de madeira e pedra.
A brisa entra por uma porta antiga.
Uma pétala branca cai de uma flor branca.
Sou, mais do que sou, estou
na perfeição das coisas que me envolvem.
Repouso na sinuosa exactidão.


António Ramos Rosa in Poemas de A Rosa Esquerda - Leya - Lisboa, 2009