Wednesday, May 7, 2014

É Primavera!

O muguet é uma flor escondida. É uma flor pequenina e branca e tem um perfume mais maravilhoso e mais belo do que o perfume dos nardos.
Durante o Inverno ela dorme na terra debaixo das folhas secas e desfeitas das árvores. Dorme como se tivesse morrido. Mas na Primavera as suas longas folhas verdes furam a terra e crescem durante alguns dias até terem um palmo de altura. Então muito devagar as folhas vão-se abrindo e mostram à luz maravilhada as campânulas aéreas, brancas e bailarinas da flor do muguet. E o vento da tarde toma em si o perfume do muguet, leva-o consigo, e espalha-o no jardim todo.
Então tudo no jardim estremece e as grandes tílias e os velhos carvalhos e as flores recém-nascidas e as relvas e as borboletas dizem:
- É Primavera! É Primavera!


Sophia de Mello Breyner Andresen in O rapaz de Bronze

Tuesday, May 6, 2014

O bilhete

Saio da cama pela fenda do lençol e fecho-a sobre ti. Toco o chão ao de leve, como uma ave repousa na pele das ondas. Visto-me às escuras - tão mais discreta a blusa do avesso, a saia tão distraída nas costuras. Vou para a cozinha de sapatos na mão e escrevo-te um bilhete: deixei-te um beijo sobre a tua almofada antes de sair.

Não preciso assinar.


Maria do Rosário Pedreira

Monday, May 5, 2014

A espera

É a altura de escrever sobre a espera. A espera tem unhas de fome, bico
calado, pernas para que as quer. Senta-se de frente e de lado em qualquer
assento. Descai com o sono a cabeça de animal exótico enquanto os olhos se
fixam sobre a ponta do meu pé e principiam um movimento de rotação em
volta de mim em volta de mim de ti.

Luiza Neto Jorge

Sunday, May 4, 2014

As estrelas de oiro

«Certa manhã acordei sozinho em casa. Acordei a chorar.- Ó mãe, mãe... – Mas a mãe não vinha. Não havia mãe. Havia só a porta fechada. – Ó mãe, mãe... – E a casa deserta. Pelas frinchas largas da porta via a manhã lá fora. Era uma manhã de sol quente, talvez de Julho, talvez de Agosto. Devia haver medas de palha na eira em frente. Mas os meus olhos mal viam, estavam rasos de água e de angústia. – Ó mãe, mãe... – E de repente, na manhã clara, começaram a cair estrelas pequeninas, estrelas verdes, vermelhas, estrelas de oiro. As lágrimas caíam-me pela cara.- Ó mãe, mãe... – O nariz esmagado contra a porta, os olhos muito abertos, vendo através da frinchas as estrelas caindo, umas atrás das outras. – Ó mãe, mãe....»


Eugénio de Andrade in Os Amantes sem Dinheiro (1950)

Saturday, May 3, 2014

Corpo livre


Friday, May 2, 2014

Silêncios

"...os silêncios são parte da conversa. O silêncio é uma outra maneira da palavra viver e há coisas que não podem ser ditas de outra maneira”.

Mia Couto in Jerusálem

Thursday, May 1, 2014

Emoções fortes

Quando chega, como por milagre, o mundo entra, simplesmente, em festa. Por outro lado, num crescendo processo de metamorfose infinita, traz-nos cores vibrantes e intensos aromas, a partir de uma realidade quase ficcional de tão perfeita. A sua pose é expressiva à luz intemporal e na sua ausência remeto-me para imaginários que me sustêm até à sua próxima versão.

Wednesday, April 30, 2014

O regresso

Dorothy e os seus amigos continuaram a caminhar, até que de repente foram ao encontro da boa fada do sul.
- «Encontrámos o Mágico de Oz que nos disse que me podia ajudar a voltar para casa na pradaria do Kansas. Como faço agora?» Perguntou-lhe Dorothy.
- «Ora...linda menina»! Respondeu-lhe a fada. «Os sapatinhos que a boa fada do Norte te deu são mágicos. Bate três vezes no chão e faz o teu pedido!» Respondeu-lhe ela.
Assim, começou um vento muito forte...que levou Dorothy de volta a casa.


L. Frank Baun in O Maravilhoso Mágico de Oz

Tuesday, April 29, 2014

O pequeno grande papel

A dança parecia ser a sua única linguagem. Entre um passo e outro, oscilava, leve e ágil, embora carregada de detalhes. O improviso, pontuado pelo movimento dos membros, a visível articulação dos braços, e a naturalidade dos gestos, revelavam o seu ímpeto mais criativo. Entre o delírio e a fantasia, sem sequer pestanejar, poética e, em simultâneo, tão intensa quanto impetuosa, demonstrava-nos, num tempo de passagem, o seu lado mais genial.

Monday, April 28, 2014

Como um sufôco

 ata e desata os nós aos dias meteorológicos, dias orais,
 manuais,
 irredimíveis,
 mais que sangue agudo da mão à lingua,
 que fruta acerba desmanchada

 entredentes,
 oh trabalha-me, intuito
 lírico,
 por fora esses dias manuais,
 por dentro troca tudo meu tão certo secretário assim
 como um sufôco,
 ou isso


Herberto Helder  in «Ofício Cantante» 23.11.1930

Sunday, April 27, 2014

É menina!






A proximidade da chegada da bebé Yara foi motivo para homenagear a Cláudia que, este domingo, organizou em sua casa, na praia de São Rafael, uma festa para a família e amigos. Muitos balões cor-de-rosa decoraram o espaço, e um delicioso lanche foi saboreado no jardim, numa tarde cheia de sol e boa disposição.

Saturday, April 26, 2014

Total entrega


Friday, April 25, 2014

A liberdade dos passos

Recomeça... se puderes, sem angústia e sem pressa e os passos que deres, nesse caminho duro do futuro, dá-os em liberdade, enquanto não alcances não descanses, de nenhum fruto queiras só metade.


Miguel Torga

Thursday, April 24, 2014

A morrer devagar




Meu amor, meu amor,
meu corpo em movimento,
minha voz à procura
do seu próprio lamento
Meu limão de amargura,
meu punhal a crescer,
nós parámos o tempo,
não sabemos morrer
E nascemos, nascemos
do nosso entristecer
Meu amor, meu amor,
meu pássaro cinzento
a chorar a lonjura
do nosso afastamento
Meu amor, meu amor,
meu nó e sofrimento,
minha mó de ternura,
minha nau de tormento
Este mar não tem cura,
este céu não tem ar,
nós parámos o vento,
não sabemos nadar
E morremos, morremos
devagar, devagar
fado de Amália Rodrigues do álbum Com que voz de 1968
letra de: José Carlos Ary dos Santos
música: Alain Oulman

Wednesday, April 23, 2014

A incógnita

"É sempre hora do chá, e nós não temos tempo de lavar as chávenas  entre um chá e outro."
"É por isso que vão andando de lugar em lugar à volta da mesa, não é?”, perguntou Alice.
"Exactamente", "à medida que as coisas vão ficando sujas."
"Mas, e o que é que acontece quando chegam ao ponto de partida outra vez?", Alice aventurou-se a perguntar.

Lewis Carroll in Alice no País da Maravilhas

Tuesday, April 22, 2014

Sem nada por dentro


Pego num pedaço de silêncio. Parto-o ao meio,
e vejo saírem de dentro dele as palavras que
ficaram por dizer. Umas, meto-as num frasco
com o álcool da memória, para que se 
transformem num licor de remorso; outras,
guardo-as na cabeça para as dizer, um dia,
a quem me perguntar o que significam.
Mas o silêncio de onde as palavras saíram
volta a espalhar-se sobre elas. Bebo o licor 
do remorso; e tiro da cabeça as outras palavras
que lá ficaram, até o ruído desaparecer, e só
o silêncio ficar, inteiro, sem nada por dentro.

Nuno Júdica in A matéria do poema (2008)

Monday, April 21, 2014

Num tempo curto

Umas atrás das outras, as flores que vou colhendo, em lugares de sonho, e distribuo ou coloco numa jarra a um canto da janela, traduzem a temporalidade da vida.
 Foco de atenção, a felicidade brilha quando a banalidade de um desejo me proporciona simultaneamente plena satisfação, como tão-somente o que se vai perdendo pelo caminho. 

Sunday, April 20, 2014

Proezas



Neste outro lugar, as flores e as folhas baloiçam soltas, apoiadas pela estrutura da rede, rumo ao céu. O sentido de aventura, não lhes afecta a clarividência estética ou a teatralidade da interpretação. Suspensas e bem delineadas, sacodem as corolas à passagem da brisa, realizando o maior sonho de dimensão artística. Nada que não tenha sido já detectado, então e depois, acrescentando ao caminho a expressividade encantatória que me sustenta os dias. 

Saturday, April 19, 2014

Gesto hábil


Friday, April 18, 2014

Os sinais do desejo

Estende um pouco mais a mão
 recolhe um a um os sinais do desejo
  fogo de abelhas o sexo
 espera a insurreição da cal
 a espessa ondulação do vento
 é sobre o corpo a própria exaltação
morrer nos flancos do amor é um dizer
 repara como brilham os limoeiros.


Eugénio de Andrade in Véspera da Água -  Assírio & Alvim