Saturday, November 15, 2014

Friday, November 14, 2014

O delírio

No descomeço era o verbo.
 Só depois é que veio o delírio do verbo.
 O delírio do verbo estava no começo, lá
 onde a criança diz: Eu escuto a cor dos
 passarinhos.
 A criança não sabe que o verbo escutar não
 funciona para cor, mas para som.
 Então se a criança muda a função de um
 verbo, ele delira.
 E pois.
 Em poesia que é voz de poeta, que é a voz
 de fazer nascimentos —
O verbo tem que pegar delírio.



Manoel de Barros

Thursday, November 13, 2014

O mar

Se a encostares ao ouvido
ouve-se o mar
O que é preciso é saber escutar

Jorge Sousa Braga in Fogo Sobre Fogo, Lisboa: Fenda, 1ª edição, 1998

Wednesday, November 12, 2014

Horas e desoras

Não me desculpo. Se já me cai o cabelo se já não sinto os ombros é
porque o amor é difícil ou a minha cabeça uma pedra escura que carrego
sobre o corpo a horas e desoras ostentando-a como objecto público sagrado
purulento. O odor que as pedras têm quando corpos. O apocalipse de tudo
quando amamos. O nosso sangue em pó tornado entornado.

Luiza Neto Jorge in Difícil Poema de Amor – Poesia - Assírio & Alvim - 2ª edição – 2001

Tuesday, November 11, 2014

Visões

Trago no olhar visões extraordinárias,
De coisas que abracei de olhos fechados 


Florbela Espanca

Monday, November 10, 2014

Itinerâncias


É todo um outro cenário um nadinha menos movimentado e sem qualquer dispersão. Sem gente, desde logo, a percepção visual do mar se amplia e transfigura num mero processo de expansão. Real ou imaginário, cada elemento da natureza nos traz um registo adicional com uma serenidade e subtileza que, nos passa totalmente despercebido em Agosto.

Sunday, November 9, 2014

Os danos

Legitimados pelos votos e com a ausência de alternativas mantinha-se a atitude de austeridade. Os efeitos destrutivos, ao destacarem-se, levavam a que as gentes deixassem de confiar. A série de excessos de capitalismo parecia agravar a situação, de resto, por si só bastante complexa. Para já a expectativa era de uma certa reserva, ao mesmo tempo que, se ansiava por um sopro de uma nova e arrojada criatividade.

Saturday, November 8, 2014

Empatia cénica



Friday, November 7, 2014

Depois de ti

Se tiveres de escolher um reino
escolhe o relento
a noite tem brancura do alabastro
ou mais extraordinária ainda

Ao que vem depois de ti
cede o instante
sem pronunciar
seu nome

José Tolentino Mendonça in O Viajante sem Sono - Assírio & Alvim, 2009

Thursday, November 6, 2014

Espaço da infância

Convoco a memória do espaço da infância
para com ela entender o esquivo sofrimento
se em finitude me leva à inquieta beira
a prosseguir temendo à revelia do tempo

Não são os segredos mas o sinal sem norte
transportando consigo transbordante e breve
o desacerto que a vertigem liga ao abandono
seduzindo-me menina entregue à sua sorte

Foge o encanto e ainda mais amargo
na maçã o veneno dói e reclina
em desmesura unindo a fera e o afago

Desamado afecto na turvação que ensina
ao punhal, a empurrar a ponta do cuidado
cruel e indiferente à própria estima


Maria Teresa Horta in Inquietude - Vila Nova de Famalicão - Edições Quasi, 2006

Wednesday, November 5, 2014

A descendência

Hoje, passada a madrugada, continuei o dia com a minha parte mais sombria; soltaram-se-me as minhas recordações, presentes, passadas e futuras, e não encontrava caminho linear entre elas.
Não só importa escrever sucessivamente, mas saber quem me sucederá numa constelação de sentidos.
O que é a descendência?
A seiva sobe e desce numa árvore, estende-se pelos ramos, e é regulada pelas estações; eu e a árvore dispomo-nos uma para a outra, num lugar por nomear. Este lugar não tem significação de dicionário, não transmigrou para nenhum livro.
Agora o sol, o solo, a solo, encadeiam-me nas palavras. Esta madrugada aproximei-me da certeza de que o texto era um ser.

Maria Gabriela Llansol in um falcão no punho - Edições Rolim, 1985

Tuesday, November 4, 2014

Os dez dedos

queria fechar-se inteiro num poema
lavrado em língua ao mesmo tempo plana e plena

poema enfim onde coubessem os dez dedos
desde a roca ao fuso
para lá dentro ficar escrito direito e esquerdo
quero eu dizer: todo
vivo moribundo morto
a sombra dos elementos por cima


Herberto Helder in A Morte sem Mestre - ed. Porto Editora, 2014

Monday, November 3, 2014

Em diagonal

Murmuro o teu nome ao rés da relva
Murmuro-o
Em diagonal da terra ao céu azul
Radiante
Felicíssimo
Não entendo nada.


Alberto de Lacerda in Resumo

Sunday, November 2, 2014

Por gestos lhe respondo

O teu amor espreita o meu corpo de longe. De longe por gestos
lhe respondo. Tenho raízes nos vulcões ternuras íntimas medos reclusos beijos nos dentes. 

Luiza Neto Jorge in Difícil Poema de Amor – Poesia - Assírio & Alvim - 2ª edição – 2001

Saturday, November 1, 2014

Em pleno centro


Friday, October 31, 2014

A coreografia

Sem sinais de recuperação, a natural aspiração pelo poder levava-os a uma encenação. Quando diziam o que as pessoas queriam ouvir era como se lhes vendessem uma ilusão. Com soluções de recurso, ausência de motivação e sem qualquer noção de futuro a apatia generalizara-se entre o povo. O peso da dívida impedia-lhes o crescimento e, uma vez mais, adiava-lhes todos os sonhos. 

Thursday, October 30, 2014

Sem janelas

As nuvens não se rasgaram
nem o sol: só a porta
do meu quarto

A abrir-se noutras
portas dando para outros
quartos e um corredor ao fundo

Não havia janelas nem
silêncios: sinfonias por dentro
a rasgar o silencio

A porta do meu quarto
já nem porta: madeiramento
para o fogo

Ana Luisa Amaral

Wednesday, October 29, 2014

A grandeza

Estou só - estás só. Não penses. Não fales. És em ti apenas o máximo de ti. Qualquer coisa mais alta do que tu te assumiu e rejeitou como a árvore que se poda para crescer. Que te dá pensares-te o ramo que se suprimiu? A árvore existe e continua para fora da tua acidentalidade suprimida. O que te distingue e oprime é o pensamento que a pedra não tem para se executar como pedra. E as estrelas, e os animais. Funda aí a tua grandeza se quiseres, mas que reconheças e aceites a grandeza que te excede.

Vergílio Ferreira in Para Sempre

Tuesday, October 28, 2014

Eras tu somente

Escrevo já com a noite
em casa. Escrevo
sobre a manhã em que escutava
o rumor da cal e do lume,
e eras tu somente
a dizer o meu nome.
Escrevo para levar à boca
o sabor da primeira
boca que beijei a tremer.
Escrevo para subir
às fontes.
E voltar a nascer.

Eugénio de Andrade in Os Sulcos da Sede 

Monday, October 27, 2014

A aliança

Tornou-se a peça que faltava para lhe preencher o vazio e encontrar a ternura que procurava. Estendido no chão, ou mais próximo dela, a persistência do olhar espelhava a percepção clara da mais intensa das cumplicidades na travessia simultânea para além do tempo e de um espaço.