Tuesday, July 17, 2012

Sunday, July 15, 2012

Relíquias


Comuns na Idade Média, para uns, estes manuscritos serviam de aprendizagem de leitura litúrgica, em vários momentos do dia, enquanto para outros não passavam de ostentação. Grossos, de diferentes tamanhos e formas, ilustrados a azul brilhante e arabescos dourados, e capas em tecido bordado a jóias, são considerados autênticos tesouros de um valor inestimável, quando a iluminura atinge o máximo da perfeição.

Saturday, July 14, 2012

Mais verdade


As figuras imaginárias têm mais relevo e verdade que as reais.

Bernardo Soares, in «Livro do Desassossego»

Friday, July 13, 2012

Ondulando

Nas ondas da praia
Nas ondas do mar
Quero ser feliz
Quero me afogar.

Nas ondas da praia
Quem vem me beijar?
Quero a estrela-d'alva
Rainha do mar.

Quero ser feliz
Nas ondas do mar
Quero esquecer tudo
Quero descansar.

Manuel Bandeira in Estrela da Manhã

Wednesday, July 11, 2012

Era uma vez


Um homem queria pendurar um quadro. Já tinha o prego, só faltava o martelo. O vizinho tinha um martelo, e o nosso homem resolveu pedi-lo emprestado.


Mas ficou com a dúvida:


 “E se o vizinho não me quiser emprestar o martelo? Ontem ele cumprimentou-me de forma muito seca. Talvez estivesse com pressa. Mas isso devia ser só uma desculpa. Ele deve ter alguma coisa contra mim. Mas porquê? Eu não fiz nada! Ele deve estar imaginando coisas. Se alguém me pedisse emprestada alguma ferramenta minha eu emprestaria imediatamente. Porque será que ele não me quer emprestar o martelo? Como é que alguém pode recusar um simples favor desses a um semelhante? Gente dessa laia só complica a nossa vida. De certeza que, ele imagina que eu dependo dele só porque ele tem um martelo. Mas, já chega!”
 E correu até ao apartamento do vizinho, tocou à campainha, o vizinho abriu a porta. Mas antes que pudesse dizer "Bom Dia", o nosso homem berrou:
 "Pode ficar com o seu martelo, seu imbecil!"

Paul Watzlawick

Tuesday, July 10, 2012

Área protegida





A Reserva Natural da Lagoa dos Salgados é a proposta de passeio que vos deixo para uma caminhada ao fim da tarde. Habitat natural para muitas aves e espécies de flora, a observar ao percorrer a ecovia de bicicleta ou a pé.

Sunday, July 8, 2012

Promessas da manhã


Saturday, July 7, 2012

Em cidades estranhas


Muitas canções começam no fim, em cidades
estranhas. Sei
que a felicidade dos meses é ao meio e a força
de um homem é ao meio
da vida pura. Mas são muitas
as canções que começam no fim.
É no fim que secamente falam do ardor
ao meio
da cidade e da existência que se volta
para si, de rosto — tremente
e verde de sua ilusão. Canções cada vez
mais no seu fim, tão secas voltadas
imenso para trás. Para onde
é todo o poder. Conheço
horríveis canções cor de coisas transtornadas.
Canções ainda repletas de peixes, flechas, dedos
agudos abertos em torno do sexo.
Começam no fim do seu pensamento.
São para morrer na véspera, com um lento
pavor no coração e o povo
atónito por todos os lados. Porque o povo
não sabe que um homem morre antes da sua
última canção.

Herberto Helder

Friday, July 6, 2012

A cada passo


Nos caminhos incertos que percorro, frequentemente, deparo com várias figueiras. Originárias do Mediterrâneo, habitam terras de abandono, e, algo espectralizadas. De Junho a Setembro, dos seus ramos debruçados entre si, emergem delicados frutos cuja pele é suave, e a textura carnuda, doce e única.

Thursday, July 5, 2012

Rigor cénico


Wednesday, July 4, 2012

Ilusório


O espaço é um corpo imaginário, como o tempo é um movimento fictício.

 Paul Ambroise Valery

Tuesday, July 3, 2012

Em Julho

Quem em Julho ara e fia, ouro cria.


ditado popular

Monday, July 2, 2012

Experiência gastronómica




Reconhecida internacionalmente, a gastronomia japonesa com o seu sabor leve e delicado, e um toque sofisticado, é certamente uma das minhas eleitas.

Sunday, July 1, 2012

A ganância


Era uma vez uma galinha muito especial. À primeira vista parecia igualzinha às outras, comia milho como elas, cacarejava, e punha ovos como todas as outras... Ora, era mesmo por isso que a galinha desta história era muito especial. Ela punha ovos de ouro.
Quando o dono descobriu, ficou muito contente pois logo pensou que os seus problemas iam terminar. Mas o homem começou a cansar-se de ter de esperar sempre pelo dia seguinte para ter mais um ovo. Até que a sua paciência se esgotou e teve vontade de ficar rico mais depressa.
Acreditava que dentro da galinha havia um tesouro, e que a sua barriga estava cheia de ovos valiosos! -" Vou matar a galinha. Vou abri-la e ficarei rico para sempre. Já estou farto de esperar".
Mal o pensou, logo o fez, mas também imediatamente se arrependeu, pois, assim que viu a galinha por dentro, percebeu que ela era igual a todas as outras galinhas da sua capoeira e que não havia tesouro. Agora, a única coisa que podia fazer com ela era uma rica canja para matar a fome porque quem tudo quer, tudo perde.

fábula de Esopo

Saturday, June 30, 2012

Atingidos pela realidade


A presente "crise" tem de ser um tempo de decisão sobre o que havemos de ser, subsidiária e solidariamente. Percebemos, naturalmente, que a maior disponibilidade para consumir, mesmo a crédito, foi para muitos concidadãos nossos a oportunidade ansiada para dispor de meios e objectos que até aí eram usufruídos por muito poucos. E também não podemos desistir do objectivo irrecusável de proporcionar a cada um o que lhe é devido para a própria realização, sendo isto o "bem comum" de qualquer sociedade. Mas teremos de nos projectar para uma nova etapa de convivência, em que tempos e espaços — mesmo que outros tempos e outros espaços — proporcionem ritmos e encontros persistentes, indispensáveis à descoberta e realização do que somos e podemos ser, e só reciprocamente alcançaremos.

D. Manuel Clemente in introdução a «Assim Seus Olhos — O lugar da esperança no futuro das crianças e dos adolescentes», de Pedro Strecht, que será lançado hoje, pelas 18:30, na Livraria Assírio & Alvim do Chiado em Lisboa.

Friday, June 29, 2012

Pedaços de alma

Três pedaços em forma de pêra - pedaços de sol que eu coloco na berma do prato. Aguardo a lágrima de mel da noite. Asfixio neste calor.

Luísa Monteiro  post in facebook a 27.06.2012

Thursday, June 28, 2012

Asas do sol


A tarde é de oiro rútilo: esbraseia
O horizonte: um cacto purpurino.
E a vaga esbelta que palpita e ondeia,
Com uma frágil graça de menino,

Poisa o manto de arminho na areia
E lá vai, e lá segue ao seu destino!
E o sol, nas casas brancas que incendeia.
Desenha mãos sangrentas de assassino!

Que linda tarde aberta sobre o mar!
Vai deitando do céu molhos de rosas
Que Apolo se entretém a desfolhar...

E, sobre mim, em gestos palpitantes,
As tuas mãos morenas, milagrosas,
São as asas do sol, agonizantes...

Florbela Espanca in Charneca em Flor

Wednesday, June 27, 2012

O entardecer


somos tão novos e estamos tão perdidos. o teu silêncio
dentro dos gritos das árvores, o meu silêncio sobre o
entardecer. seria feliz se pudesse dizer-te: vem,
vamos fugir de mãos dadas, amor.

José Luís Peixoto

Tuesday, June 26, 2012

Daqui para a frente


Afinal, a recuperação da confiança foi positiva, mas não bastou. O agravamento da recessão, a desaceleração do consumo privado, e a queda das receitas fiscais conduziram-nos à derrapagem do défice, e, a Grécia é um bom indicador do que a longo prazo nos poderá acontecer.  Há acordos absolutamente irrealizáveis, e não há economia que resista a tão altos juros. E, pior que isso é não haver solução à vista quando os interesses no espaço euro são tão contraditórios. Sem ferramentas para melhor gerir os nossos escassos recursos, a chave passa pela renegociação de prazos, alargando-os em melhores condições, ou aumentando a austeridade, e, com as poupanças de uma vida a esgotarem-se, quem terá ainda capacidade de resistir?

Monday, June 25, 2012

Discordâncias


Onde eu gostava mesmo de viver era num comboio, prestes a viajar, que não partisse nunca.

António Lobo Antunes