Sunday, May 10, 2009

Privilegiando o bizarro

A sua poesia é intensa, e multiforme, quebrando qualquer lógica. A linguagem é particularmente difícil, e bastante complicada de desatar. Mas, uma vez que se mergulhe no seu universo, descobre-se-lhe o imaginário de cores dramáticas, e vibrantes, quase a parecer empurrar-nos para um futuro adensado de mistério. O que mais lhe aprecio é sem dúvida o domínio da palavra, o sentido rítmico que lhe imprime, a beleza da sonoridade, a inovação das ideias abstractas, e a dimensão emocional que sempre me desperta. E ainda o que dele haverá para descobrir. Verdadeiramente surpreendente Herberto Helder não é para ser lido baixinho, mas para com ele nos deixarmos arrastar para lugares distantes e intricados, que nos alimentem a paixão.
.
Uma pedra na cabeça da mulher; e na cabeça
da casa, uma luz violenta.
Anda um peixe comprido pela cabeça do gato.
A mulher senta-se no tempo e a minha melancolia
pensa-a, enquanto
o gato imagina a elevada casa.
Eternamente a mulher da mão passa a mão
pelo gato abstracto,
e a casa e o homem que eu vou ser
são minuto a minuto mais concretos.
.
A pedra cai na cabeça do gato e o peixe
gira e pára no sorriso
da mulher da luz. Dentro da casa,
o movimento obscuro destas coisas que não encontram
palavras.
Eu próprio caio na mulher, o gato
adormece na palavra, e a mulher toma
a palavra do gato no regaço.
Eu olho, e a mulher é a palavra.
.
Palavra abstracta que arrefeceu no gato
e agora aquece na carne
concreta da mulher.
A luz ilumina a pedra que está
na cabeça da casa, e o peixe corre cheio
de originalidade por dentro da palavra.
Se toco a mulher toco o gato, e é apaixonante.
Se toco (e é apaixonante)
a mulher, toco a pedra. Toco o gato e a pedra.
Toco a luz, ou a casa, ou o peixe, ou a palavra.
Toco a palavra apaixonante, se toco a mulher
com seu gato, pedra, peixe, luz e casa.
A mulher da palavra. A Palavra.
.
Deito-me e amo a mulher. E amo
o amor na mulher. E na palavra, o amor.
Amo com o amor do amor,
não só a palavra, mas
cada coisa que invade cada coisa
que invade a palavra.
E penso que sou total no minuto
em que a mulher eternamente
passa a mão da mulher no gato
dentro da casa.
.
No mundo tão concreto.

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